Lucia Emmel   Dose Plena
ED 10

A porta que range

Parou de incomodar. A pergunta é se melhorou ou se você só aprendeu a não ouvir

por Lucia Emmel

O óleo de dobradiça, esquecido na gaveta por dois anos

O óleo de dobradiça, esquecido na gaveta por dois anos

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A porta do armário da cozinha range.

Range há uns dois anos. Um rangido agudo, comprido, de filme de suspense barato.

No começo, me irritava toda manhã. Prometi passar óleo na dobradiça na primeira semana. Depois, na segunda. Depois parei de prometer.

E então aconteceu algo estranho: parei de ouvir.

A porta continuou rangendo exatamente igual. Eu é que não escutava mais.

Até que uma amiga, tomando café aqui em casa, abriu o armário para pegar o açúcar e disse, rindo: «Nossa, essa porta!»

E, de repente, o rangido voltou. Inteiro. Como se tivesse passado dois anos esperando alguém de fora para existir de novo.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Dois anos de rangido e nenhum ouvido

Ninguém trocou a dobradiça. Ninguém passou óleo. O problema estava rigorosamente igual ao do primeiro dia.

O que mudou foi a minha relação com ele.

Nos primeiros dias, o rangido era uma interrupção. Nos primeiros meses, uma pequena irritação. Depois de um ano, virou paisagem. Fazia parte da cozinha como a geladeira e o pano de prato.

Se alguém me perguntasse, na véspera daquele café, se a porta me incomodava, eu teria respondido com sinceridade: «Que porta?»

E eu estaria dizendo a verdade. Só que a verdade estava incompleta.

A porta é o exemplo inofensivo. O mesmo movimento acontece com quase tudo o que fica tempo demais ao nosso redor.

A cadeira do escritório que machuca as costas, e a gente já senta torto sem perceber. O trajeto do trabalho com um trecho que sempre engarrafa, e a gente nem conta mais esses vinte minutos. A reunião semanal que não decide nada. O tom com que alguém fala com você, e que um dia já te ofendeu.

Em todos esses casos, o incômodo diminuiu com o tempo. É tentador concluir que a situação melhorou.

Só que existem duas formas de um incômodo diminuir. Numa, o problema foi resolvido. Na outra, a gente se adaptou a ele.

Por dentro, as duas dão exatamente a mesma sensação de alívio. E é por essa razão que a segunda se disfarça tão bem da primeira.

 
 

II  O Fundamento

Montaigne e a moça que carregava um boi

Michel de Montaigne abre um dos seus Ensaios, o que trata do costume, com uma história curiosa que ele recolheu de autores antigos.

Uma mulher de vilarejo se acostumou a pegar no colo um bezerro desde o dia em que ele nasceu. Todos os dias, um pouco. O bezerro cresceu, e ela continuou carregando. Quando ele já era um boi feito, ela ainda o levava nos braços.

O peso aumentou devagar demais para que ela percebesse.

Para Montaigne, a história mostra a força do costume. Ele o chama de mestre traiçoeiro: se instala em nós aos poucos, às escondidas, com um começo manso, e um dia mostra um rosto diante do qual já não temos liberdade nem de levantar os olhos. O hábito, escreve ele, embota os sentidos.

Embotar é a palavra exata. O costume não faz o boi ficar mais leve. Faz a mulher parar de sentir o peso.

Há um lado bom nessa capacidade. Se cada rangido, cada fila e cada incômodo pequeno nos atingisse com a força do primeiro dia, não daríamos conta de viver. Acostumar-se é uma forma de economia.

O risco aparece quando essa economia começa a decidir por nós. Quando deixamos de mudar o que poderia ser mudado só porque o incômodo ficou silencioso demais para ser ouvido.

É nesse ponto que cabe a pergunta desta carta: aquilo que não me incomoda mais melhorou, ou eu apenas aprendi a conviver?

A resposta não costuma vir de dentro. Por dentro, as duas sensações são iguais. Ela vem de fora, de um olhar que ainda não se acostumou. Uma amiga abrindo o armário. Alguém novo no trabalho perguntando «por que vocês fazem desse jeito?».

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Ouvir de novo, como quem acabou de chegar

Hoje, a dose é emprestar o ouvido de quem acabou de chegar.

Escolha um cômodo da casa, ou um trecho do seu dia. A cozinha. O caminho até o trabalho. A primeira hora da manhã.

Percorra esse lugar como se fosse visita. Alguém que nunca esteve ali e repara em tudo.

Anote três incômodos que você encontrar. Os pequenos, aqueles que você já nem conta. A gaveta que emperra. A luz que pisca. A notificação que chega sempre na hora errada.

Para cada um, faça a pergunta:

«Melhorou, ou eu me acostumei?»

Os que melhoraram, deixe em paz. Os outros, separe.

E escolha só um para resolver ainda esta semana. O mais barato, o mais rápido, o mais bobo. Dez minutos bastam.

No meu caso, foi uma gota de óleo na dobradiça. Dois anos de rangido, resolvidos em menos tempo do que levei para escrever esta carta.

O efeito vai além da porta. Quando você resolve um incômodo que tinha virado paisagem, percebe quantos outros ainda estão ali, esperando um ouvido novo.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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