Lucia Emmel   Dose Plena
ED 33

Agora não dá

Você escolheu exatamente o que queria. E agora sente falta de tudo o que não escolheu

por Lucia Emmel

A chave da casinha da praia, ao lado do calendário dos feriados

A chave da casinha da praia, ao lado do calendário dos feriados

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Fazia anos que você falava da casinha na praia.

Nada de mansão. Uma casa pequena, varanda com rede, dez minutos a pé do mar, um pé de amendoeira na frente. Você salvava anúncios, mandava para os amigos, fazia planos em voz alta no meio do almoço.

Em março, finalmente, aconteceu. Contrato de um ano, chave na mão, chaveiro de concha comprado na feirinha do primeiro dia.

Foi a melhor decisão do ano. Você conta para todo mundo, inclusive para quem não perguntou.

Na terça passada, chegou a mensagem da turma da faculdade: «Pousada em Minas no feriado. Fogão a lenha, cachoeira, todo mundo confirmado. Só falta você.»

Você começou a digitar «tô dentro», parou no meio e olhou para o chaveiro de concha em cima da mesa.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Uma casinha e um convite

A resposta saiu uma hora depois: «Esse feriado não vai dar.»

E, junto com ela, uma sensação estranha. Uma espécie de aperto, como se alguém tivesse fechado uma porta sem pedir sua opinião.

Só que ninguém fechou porta nenhuma.

Ninguém obrigou você a alugar a casinha. Ninguém escondeu que casa alugada pede presença, que o aluguel corre mesmo vazia, que a amendoeira não varre as próprias folhas. Você sabia de tudo e escolheu com alegria.

Mesmo assim, desde março, cada feriado chega com uma frase pronta: «Tem que ser lá.» A casa espera. O contrato está assinado. Ir para outro lugar parece desperdício, quase uma traição ao sonho antigo.

E lá estava ela, na terça: a sensação de ter perdido alguma liberdade.

De onde vem o aperto?

Talvez da parte mais óbvia da história. Toda escolha de verdade tem um custo, e o custo às vezes só aparece depois. Enquanto a casinha era um anúncio salvo no celular, ela não competia com viagem nenhuma. Agora que tem rede, chave e amendoeira, ocupa o calendário. A conta que você fez em teoria chegou na prática.

Talvez de algo mais sutil. Antes da escolha, você tinha a praia e Minas ao mesmo tempo, as duas no futuro, as duas disponíveis. A liberdade parecia enorme porque nada ainda tinha sido decidido. Depois da escolha, sobrou uma. E a que ficou de fora, de repente, ganhou fogão a lenha e cachoeira.

E talvez de um lugar que você ainda não olhou. Quem sabe o «tem que ser lá» nem venha da casa. Talvez venha de uma regra que você criou sem perceber, a de que um sonho realizado precisa ser usado até a última gota para valer a pena.

O mesmo aperto aparece em outras escolhas felizes. O curso de italiano que você quis fazer, e que agora ocupa as quartas. A assinatura do teatro, que transforma toda estreia em compromisso. O sim para coordenar a festa junina da rua, que engole o mês de junho inteiro.

A escolha foi livre nos três casos. E o compromisso que ela produziu passa a parecer o contrário da liberdade.

 
 

II  O Fundamento

Kierkegaard e as portas que se fecham

Em 1843, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard publicou um livro com um título que já é quase a cena inteira: «Ou isso, ou aquilo».

Numa das passagens mais conhecidas, ele brinca com a impossibilidade de escapar da perda. Em tradução livre: case-se, e você vai se arrepender; não se case, e também vai se arrepender. Seja qual for o caminho, o arrependimento vem.

A provocação parece pessimista, mas aponta para algo mais interessante. Para Kierkegaard, escolher de verdade é aceitar que cada sim carrega muitos nãos. Quem tenta manter todas as possibilidades abertas, para nunca perder nenhuma, acaba sem viver nenhuma por inteiro.

Lido com Kierkegaard ao lado, o aperto da terça não prova que a escolha foi errada. Prova que foi uma escolha.

A liberdade que parecia maior antes da casinha era a liberdade de quem ainda não tinha decidido nada. Ela tinha um tamanho enorme justamente porque não tinha peso nenhum. A de agora é menor no número de portas, e maior em outra dimensão: é a liberdade que você efetivamente exerceu.

E há um detalhe que Kierkegaard deixa no ar. A estrada para Minas continua lá. Só que agora ela tem um preço, e o preço é deixar a casinha vazia por um feriado.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Olhar para a porta que você abriu

Na próxima vez que um compromisso escolhido parecer uma prisão, vale uma pergunta antes de julgar a escolha:

«O que eu ganhei quando fechei essa porta?»

Não para fingir que a perda não existe. Minas era boa, a turma estaria lá, o feriado teria sido ótimo. A falta é real.

Mas a pergunta lembra o outro lado da conta, que o aperto costuma esconder: o café na varanda com barulho de mar, a rede no fim da tarde, os anos de vontade que finalmente viraram endereço.

E vale uma segunda pergunta, mais desconfiada: «Quem disse que tem que ser lá?» O contrato pede o aluguel em dia. Ele não pede presença em todo feriado. Às vezes o «tem que» é uma cláusula que só existe na sua cabeça, e uma casa escolhida com alegria aguenta perfeitamente ficar um feriado esperando.

Escolher uma vez não obriga a escolher do mesmo jeito para sempre. Às vezes a resposta mostra que o compromisso precisa de um ajuste. E às vezes mostra que está tudo certo, e que o aperto é só o barulho que uma escolha de verdade faz.

Na terça seguinte, você voltou ao grupo e mandou outra mensagem: «Minas, então. A amendoeira me perdoa.»

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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