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De tempos em tempos: cartas.
Lily observa tudo
e, ao que tudo indica, escreve primeiro.
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📨 Mensagens da Caixa de Saída de Lily
Carta 001
Assunto: A Matemática da Impaciência
Querido Brádipo,
Sim, é você mesmo, meu tão estimado amigo.
Não esperava por essa, não é?
Pois.
Admita que este ridículo apelido — embora carinhoso — cai em você com perfeição. E será mantido.
Uma das funções das amizades autênticas é esta: surpreender e espezinhar ao mesmo tempo, com a esperança de que o afeto sobreviva à veemência da repreensão.
Maldita seja essa sua preguiça.
E maldito seja o seu hábito de sucumbir a ela.
Claro que sei que não fará grande caso da minha pretensa fúria.
Ainda assim ela exige manifestar-se por esta correspondência, já que estou sob a estrita supervisão da Rosa Espinhosa, na biblioteca — território sagrado demais para permitir qualquer despropósito que não seja por escrito.
Sorte a sua.
Não sei por que persisto esperando iniciativas tais que nunca chegam.
É verdade que você me escreve.
Mas somente em resposta às minhas solicitações.
Exceto aquela vez do poema.
E a do meu aniversário.
Oh, sim. Tenho enorme consideração por cada linha.
Mas ainda é desigual demais.
Duas.
Contra cento e trinta e sete.
Pode contar.
Das 139 mensagens que trocamos, 137 começaram comigo.
E não ouse revirar os olhos.
É claro que anoto os números para jogar na sua cara.
Sou mulher.
Fui feita para isso.
Se bem que os seus foram poemas.
Aqui temos um ponto relevante.
Serei justa.
Seus poemas são infinitamente melhores do que as minhas mensagens.
E eu, em território de poemas, já desisti.
Você mesmo constatou quando tentei.
Céus, que vergonha. Nem gosto de lembrar.
Soltei uma risadinha agora e levei uma bronca.
— Silêncio, por favor.
Disse a Roseira Má, olhando por cima dos óculos.
Peço desculpas por aquelas tentativas. Mas serviram para me ensinar que devo permanecer no território seguro da prosa, sem inventar moda para impressioná-lo.
Oh!
Roseiral agora iniciou o ritual da caneta.
Três batidas.
Preciso concluir.
Em suma:
O propósito desta carta é o mesmo de sempre.
Ao modo Campos de Morango.
Invoque aquela sensação.
Ainda que o riacho tenha modificado todo o entorno, e ainda que as sebes livres tenham engolido a trilha até os portões.
Encontre um jeito.
Quero tudo.
O que andou pensando.
O que não planejava contar.
O que talvez não seja relevante para mais ninguém.
O problema, pelo que se apresenta até o momento, é que tudo o que eu manifesto em impaciência você retribui em preguiça.
Ciclo eterno.
De qualquer forma, estou esperando.
Não seja vagaroso, sob o risco de receber outra destas antes mesmo de terminar a leitura.
E não adianta praguejar só para si mesmo.
Escreva.
Grandes saudades,
Lily
📤 Mensagem enviada
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Lucia Helena Emmel

Laboratório Literário
Cartas. Cenas. Fragmentos.

