Lucia Emmel   Dose Plena
ED 3

Decidido. Ou quase.

Nenhuma informação nova apareceu. Mesmo assim, a decisão voltou para a mesa

por Lucia Emmel

O leque de amostras ainda aberto, com o verde já escolhido

O leque de amostras ainda aberto, com o verde já escolhido

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A parede já está pintada.

Verde-oliva. Você escolheu entre quatro tons, comparou na luz da manhã e na da noite, perguntou a duas pessoas, decidiu.

Faz uma semana.

E ontem, antes de dormir, lá estava você de novo, rolando o catálogo de cores no celular.

Nenhum tom novo foi lançado. A parede não mudou. A luz é a mesma.

Só a decisão, que parecia fechada, voltou a ficar entreaberta.

Hoje a gente olha para esse movimento curioso de reabrir o que já foi decidido, sem nenhum motivo novo para reabrir. Primeiro a cena, como ela é. Depois um estudo que mostrou um efeito colateral pouco conhecido da possibilidade de voltar atrás. Por fim, um gesto para fechar a decisão de verdade.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

A parede pintada e o catálogo ainda aberto

Vamos separar os fatos.

Houve um momento de escolha. Você reuniu as informações disponíveis, pesou as opções e decidiu.

Depois desse momento, nada de relevante aconteceu. Nenhum dado novo. Nenhum problema com o que foi escolhido.

E, mesmo assim, a escolha voltou a ser examinada. Várias vezes. Em horários aleatórios. Geralmente à noite.

Repare que a parede é só um exemplo pequeno e seguro. A mesma cena aparece em lugares bem maiores.

A escola que você escolheu para o curso, e cujo site você continua visitando para «conferir». O apartamento alugado, com o aplicativo de imóveis ainda instalado. A conversa difícil que você decidiu ter, e que vai sendo remarcada porque talvez exista um jeito melhor de começar.

Em todos esses casos, a pergunta que volta é parecida: «e se a outra opção fosse melhor?».

Dá vontade de chamar a cena de insegurança. Ou de indecisão.

O rótulo, porém, esconde um detalhe: você decidiu. A dificuldade apareceu depois, no ato de considerar a decisão encerrada.

São duas operações diferentes.

Tomar uma decisão é escolher entre opções.

Encerrar uma decisão é parar de tratar as outras opções como se ainda estivessem disponíveis.

A primeira você fez. A segunda ficou pela metade.

E enquanto a segunda não acontece, a decisão cobra uma espécie de aluguel. Um pouco de atenção aqui, um pouco de dúvida ali, uma ponta de insatisfação com uma parede que, objetivamente, ficou bonita.

 
 

II  O Fundamento

O que um estudo com fotografias revelou sobre voltar atrás

Em 2002, pesquisadores da Universidade Harvard fizeram um experimento simples com estudantes de um curso de fotografia.

Cada estudante revelava duas das suas melhores fotos e precisava escolher uma para levar para casa. A outra ficaria com o curso.

Metade dos estudantes ouviu que a escolha era definitiva. A outra metade ouviu que poderia trocar de foto nos dias seguintes, se mudasse de ideia.

Dias depois, os pesquisadores perguntaram o quanto cada um gostava da foto escolhida.

Quem não podia trocar gostava mais da própria foto.

Quem podia trocar gostava menos.

O detalhe que mais intriga vem em seguida. Quando outro grupo de estudantes foi consultado antes da escolha, a maioria preferiu ficar com a opção de poder trocar. Pareceu mais seguro. Mais livre.

E era justamente a opção que deixava as pessoas menos satisfeitas.

Por que acontece assim? Os pesquisadores sugerem que, quando a decisão está encerrada, a mente faz um trabalho silencioso de acomodação. Começa a reparar nas qualidades do que foi escolhido, a fazer as pazes com os defeitos, a seguir em frente.

Quando a decisão continua aberta, esse trabalho não começa. A mente fica em modo de comparação. E comparação permanente é um jeito eficiente de não gostar de nada por inteiro.

A descoberta muda um pouco a pergunta.

Em vez de apenas:

«Será que eu escolhi certo?»

talvez valha perguntar:

«Eu deixei a minha escolha terminar de acontecer?»

Porque reabrir uma decisão parece prudência. Às vezes é. Quando aparece um fato novo, revisar é sinal de lucidez.

Mas quando nada mudou, reabrir é só uma forma de nunca chegar ao outro lado da escolha, onde ela finalmente começa a ser sua.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Fechar a decisão, e não só tomá-la

Agora, a parte prática.

Escolha uma decisão que você já tomou e que continua visitando. Pode ser pequena. Uma parede, um curso, um destino de viagem.

E faça um teste com ela.

Antes de abrir de novo o catálogo, o site ou o aplicativo, pergunte:

«Apareceu alguma informação nova desde que eu decidi?»

Se a resposta for sim, ótimo: revise, com calma e com hora marcada.

Se a resposta for não, a decisão está fechada. Feche a aba. Desinstale o aplicativo. Guarde o leque de cores na gaveta.

O gesto parece pequeno, mas tem uma função importante. Ele tira da frente o convite permanente à comparação. Opção visível é opção disponível, e a mente não descansa enquanto houver opção disponível.

Depois, faça o movimento que o estudo sugere e que quase ninguém faz de propósito: procure três qualidades no que você escolheu. Três. Repare na parede quando a luz da manhã bater nela. Deixe a decisão terminar de acontecer.

E, se a dúvida voltar à noite, responda a ela com a mesma pergunta de antes. Tem fato novo? Não? Então a conversa acabou.

A parede é verde-oliva.

Ficou bonita.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
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