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Depois que chega
A alegria da conquista é verdadeira. Só dura menos do que a espera prometia
por Lucia Emmel
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O sofá que já foi novidade
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O sofá ficou oito meses na tela do celular antes de entrar na sala.
Você salvou a foto, comparou tecidos, mediu a parede duas vezes. Separou uma parte do dinheiro todo mês, e cada depósito tinha um gosto de contagem regressiva.
No dia da entrega, chegou às dez da manhã. Você tirou o plástico com cuidado, sentou, deitou, sentou de novo. Mandou foto para três pessoas.
Nas primeiras semanas, passava pela sala e sorria. Às vezes sentava só para sentir o tecido.
Hoje é domingo. O sofá continua lá, lindo, exatamente igual.
E você está nele, de lado, olhando o celular, sem lembrar da última vez em que reparou que ele existe.
Vem comigo. Continue lendo. ↓
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I A Cena
Oito meses de espera, três semanas de festa
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Nada deu errado com o sofá. E, mesmo assim, algo mudou.
Ele é confortável, combina com a sala, cumpriu tudo o que prometia. A alegria do dia da entrega foi real, nada de fingimento. Só que ela foi ficando mais fraca, semana após semana, até virar paisagem.
A espera, no entanto, parecia prometer mais. Durante os oito meses, a imagem na cabeça era de um contentamento duradouro. O sofá ia mudar a sala, e a sala ia mudar os domingos.
Mudou mesmo, por umas três semanas.
Com conquistas bem maiores do que um sofá, a curva é parecida.
A aprovação esperada por anos, comemorada com bolo e mensagens, e que seis meses depois virou só o lugar onde se trabalha. O apartamento novo, que no primeiro mês parecia um sonho e no segundo ano já tem uma lista de defeitos na geladeira. O carro, a viagem, a promoção, a reforma da cozinha.
A conquista chega inteira. A satisfação chega também. Mas logo a novidade passa a fazer parte da rotina, e a rotina, por definição, não chama atenção.
E então, quase sem perceber, a atenção já está no próximo item da lista. A cortina nova para combinar com o sofá. A próxima viagem. O próximo degrau.
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II O Fundamento
Os ganhadores da loteria e o café da manhã
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Três psicólogos americanos foram, em 1978, atrás de um grupo de pessoas que tinha vivido a conquista mais desejada de todas: ganhar na loteria.
Eles entrevistaram ganhadores do estado de Illinois, nos Estados Unidos, com prêmios entre cinquenta mil e um milhão de dólares, e compararam com moradores da mesma região que não tinham ganhado nada.
As perguntas eram simples. Quão feliz você está hoje? Quão feliz espera estar daqui a alguns anos? E quanto prazer você sente em atividades do dia a dia, como conversar com um amigo, ver televisão, tomar o café da manhã, ouvir uma piada, receber um elogio?
Os ganhadores, entre um mês e um ano e meio depois do prêmio, não se diziam significativamente mais felizes do que os vizinhos. E havia um detalhe ainda mais estranho: eles relatavam menos prazer nos pequenos momentos do dia.
O café da manhã tinha perdido um pouco do sabor.
Os pesquisadores sugeriram duas explicações. A primeira é que a gente se acostuma, e o que era extraordinário vira a nova referência. A segunda é o contraste: depois de um pico tão alto, as alegrias pequenas parecem menores ainda.
O estudo é antigo, tem limitações, e pesquisas posteriores mostraram que o quadro varia bastante de pessoa para pessoa. Mas a ideia central continua presente em quase tudo o que se estudou depois: a gente se adapta ao que conquista, e mais rápido do que imagina quando ainda está esperando.
O sofá entrou para essa estatística no dia em que virou o lugar de olhar o celular.
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III A Dose Aplicada
Visitar uma conquista antiga
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Domingo combina com uma visita, e a de hoje não exige sair de casa.
Procure em volta uma conquista antiga. Algo que você desejou muito, por muito tempo, e que hoje faz parte da paisagem. Pode ser o sofá, a estante, o emprego, a cidade onde mora, a habilidade que levou anos para aprender.
Antes de qualquer outra atividade, passe cinco minutos com ela, como se tivesse chegado hoje.
«Como era, antes de eu ter?»
Lembre da espera. Do que faltava, do que você imaginava, do que fazia enquanto ainda não tinha.
Ninguém precisa sentir de novo a euforia do primeiro dia. Ela não volta, e tudo bem.
Basta reparar, por alguns minutos, em algo que a rotina tornou invisível.
E, se sobrar tempo, vale olhar para o próximo item da sua lista de desejos com uma curiosidade nova. O que você espera sentir quando ele chegar? E quanto tempo acha que a sensação vai durar?
Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!
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Como foi a edição de hoje?
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Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena
por Lucia Emmel
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