Lucia Emmel   Dose Plena
ED 12

Deu certo. E daí?

Um bom resultado não garante que a decisão foi boa. E um resultado ruim também não prova o contrário

por Lucia Emmel

O guarda-chuva que ficou em casa e, naquele dia, não fez falta

O guarda-chuva que ficou em casa e, naquele dia, não fez falta

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A previsão dizia oitenta por cento de chance de chuva.

Olhei para o céu, achei que não parecia tanto, e deixei o guarda-chuva em casa. Peso a menos na bolsa, uma mão livre a mais.

Não choveu.

Voltei para casa no fim da tarde com uma satisfação discreta, quase profissional. Eu sabia. Eu tenho faro para tempo.

Na semana seguinte, mesma previsão, mesmo céu, mesma decisão.

Cheguei ao trabalho com o cabelo grudado na testa e um sapato que levou dois dias para secar.

E entendi, tarde, que o faro da semana anterior não tinha existido. Eu tinha tido sorte, e confundi sorte com acerto.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Oitenta por cento de chance de chuva

O mais interessante dessa história é o que aconteceu entre a primeira e a segunda semana.

Quando não choveu, eu não pensei «tive sorte». Pensei «decidi bem». O resultado bom foi direto para a conta da minha capacidade de julgamento, sem passar por nenhuma conferência.

E a confiança que saiu dali me fez repetir a mesma escolha frágil, agora com mais convicção.

O raciocínio de verdade, naquela primeira manhã, tinha sido o seguinte: «a previsão diz que provavelmente vai chover, mas o céu não me parece tão carregado, e o guarda-chuva pesa». Fraco. Qualquer pessoa sensata, ouvindo esse argumento antes do resultado, me mandaria levar o guarda-chuva.

Mas ninguém ouve o argumento depois que o dia termina. A gente só ouve o final.

O guarda-chuva é inofensivo. Em escala maior, o mesmo engano tem consequências mais caras.

Alguém investe todas as economias num negócio do cunhado, sem olhar números, e dá certo. Passa a confiar no próprio instinto para investir. Alguém entrega um trabalho importante sem revisar, por pressa, e ninguém percebe os erros. Passa a não revisar mais. Uma equipe lança um produto às pressas, contra todas as recomendações, e as vendas surpreendem. A pressa vira método.

Em cada caso, o resultado bom ensinou a lição errada.

E o contrário também acontece, e é tão injusto quanto. Você leva o guarda-chuva, o dia fica lindo, e você passa a tarde com a sensação de ter exagerado, carregando aquele peso inútil. Quando, na verdade, decidiu muito bem.

 
 

II  O Fundamento

A mesma decisão, julgada pelo final

Em 1988, dois pesquisadores americanos mostraram o quanto esse engano é comum, mesmo entre pessoas atentas.

Eles apresentavam aos participantes uma série de decisões já tomadas por outras pessoas, descritas em detalhe: as informações disponíveis na hora, as alternativas, os riscos conhecidos.

A descrição era idêntica para todos. O único elemento que variava era o desfecho. Para uns, a história terminava bem. Para outros, terminava mal.

Depois, os participantes avaliavam a qualidade da decisão e a competência de quem decidiu.

Quem soube do final feliz julgou a decisão melhor e a pessoa mais competente. Com as mesmas informações, o mesmo raciocínio, as mesmas alternativas.

O fenômeno ficou conhecido como viés do resultado. O final pinta o caminho inteiro com a sua cor.

O problema é que, na vida, o resultado depende de duas partes. Uma é a decisão, aquilo que estava ao seu alcance: o que você sabia, como pensou, o que pesou. A outra é a sorte, tudo o que não estava: a chuva, o mercado, o humor de quem recebeu o seu trabalho.

Uma boa decisão aumenta a chance de um bom resultado. Não garante.

E uma decisão ruim pode, de vez em quando, dar certo. Esse é justamente o caso mais perigoso, porque é o único que não pede revisão. Ninguém para para examinar o que funcionou.

A pergunta desta sexta cabe inteira aqui: se deu certo, significa que decidi bem?

Talvez. Mas o resultado sozinho não é capaz de responder.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Duas notas para a mesma escolha

Uma decisão, duas notas separadas.

Pense numa decisão recente que deu certo. Pode ser pequena: o caminho que você pegou, a resposta que mandou, a compra que fez.

Primeira nota, de zero a dez, para o processo:

«Com o que eu sabia naquela hora, a escolha fazia sentido?»

Pense no que você considerou, no que ignorou, no tempo que dedicou à pergunta.

Segunda nota, também de zero a dez, para o resultado.

Agora compare as duas.

Se as duas são altas, parabéns: decisão boa, resultado bom. Pode repetir.

Se o resultado é alto e o processo é baixo, cuidado. Foi sorte, e sorte não se repete por encomenda. Vale anotar o que você faria diferente da próxima vez, mesmo tendo dado certo.

Se o processo é alto e o resultado é baixo, seja gentil consigo. Você fez a sua parte. O resto não estava ao seu alcance.

O exercício parece pequeno, mas treina um músculo raro: olhar para o caminho, além da chegada.

Uma pergunta, para carregar no lugar do guarda-chuva: qual acerto meu foi, na verdade, só um dia sem chuva?

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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