|
Ninguém na turma disse nada em voz alta. Mas o grupo da viagem teve algumas perguntas reveladoras.
«Marcelo, você confirmou a pousada mesmo?» «Alguém mais tem o endereço, por garantia?» «Vamos combinar de sair meia hora antes, né, por via das dúvidas?»
Cada pergunta era educada. Juntas, formavam um retrato: o Marcelo de 1994.
O Marcelo de agora trabalha há quinze anos com logística. Organiza a entrega de mercadorias em três estados. Coordena gente, prazos e caminhões. Nada disso estava no grupo da turma, porque o grupo não pergunta sobre o Marcelo de agora. O grupo já sabe quem ele é.
Ou acha que sabe.
O que aconteceu ali é muito comum, e quase invisível. A gente conhece uma pessoa num certo momento da vida e guarda uma ficha sobre ela. «Desligado.» «Explosiva.» «A que nunca termina nada.» «O caçula.» A ficha é útil por um tempo, porque poupa trabalho: não precisa reavaliar a pessoa a cada encontro.
O problema é que a pessoa continua vivendo depois que a ficha foi escrita.
Ela muda de emprego, de cidade, de hábito. Faz um curso, lê, apanha da vida, aprende. E a ficha continua lá, com a letra de trinta anos atrás.
Nas famílias, a ficha costuma ser ainda mais antiga. A irmã mais velha que já é avó e continua sendo tratada como a mandona. O filho de quarenta anos que ainda recebe a recomendação de levar o casaco.
E a cena tem um outro lado, mais desconfortável. Em algum grupo, em alguma mesa de domingo, existe uma ficha antiga com o seu nome.
|