Lucia Emmel   Dose Plena
ED 18

Do jeito que sempre foi

A pessoa mudou faz tempo. O papel que ela ocupa na sua cabeça, não

por Lucia Emmel

O roteiro da viagem, feito por quem ninguém esperava

O roteiro da viagem, feito por quem ninguém esperava

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Na turma da escola, o Marcelo era o desligado.

Esquecia o trabalho em grupo, perdia a carteira em toda excursão, chegava ao ônibus quando o motorista já tinha ligado o motor. Virou piada fixa. Trinta anos de piada.

Este ano, a turma resolveu fazer uma viagem juntos. E quem se ofereceu para organizar foi ele.

Montou uma planilha. Reservou a pousada com três meses de antecedência. Mandou no grupo o roteiro de cada dia, com horário de saída, endereço e plano B para chuva.

Você leu o roteiro inteiro.

E depois, discretamente, entrou no site da pousada para conferir se a reserva existia mesmo.

Existia. Estava tudo certo, nos mínimos detalhes.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

O roteiro conferido duas vezes

Ninguém na turma disse nada em voz alta. Mas o grupo da viagem teve algumas perguntas reveladoras.

«Marcelo, você confirmou a pousada mesmo?» «Alguém mais tem o endereço, por garantia?» «Vamos combinar de sair meia hora antes, né, por via das dúvidas?»

Cada pergunta era educada. Juntas, formavam um retrato: o Marcelo de 1994.

O Marcelo de agora trabalha há quinze anos com logística. Organiza a entrega de mercadorias em três estados. Coordena gente, prazos e caminhões. Nada disso estava no grupo da turma, porque o grupo não pergunta sobre o Marcelo de agora. O grupo já sabe quem ele é.

Ou acha que sabe.

O que aconteceu ali é muito comum, e quase invisível. A gente conhece uma pessoa num certo momento da vida e guarda uma ficha sobre ela. «Desligado.» «Explosiva.» «A que nunca termina nada.» «O caçula.» A ficha é útil por um tempo, porque poupa trabalho: não precisa reavaliar a pessoa a cada encontro.

O problema é que a pessoa continua vivendo depois que a ficha foi escrita.

Ela muda de emprego, de cidade, de hábito. Faz um curso, lê, apanha da vida, aprende. E a ficha continua lá, com a letra de trinta anos atrás.

Nas famílias, a ficha costuma ser ainda mais antiga. A irmã mais velha que já é avó e continua sendo tratada como a mandona. O filho de quarenta anos que ainda recebe a recomendação de levar o casaco.

E a cena tem um outro lado, mais desconfortável. Em algum grupo, em alguma mesa de domingo, existe uma ficha antiga com o seu nome.

 
 

II  O Fundamento

Heráclito e o rio que não espera

Há uns dois mil e quinhentos anos, na cidade grega de Éfeso, Heráclito escreveu frases tão curtas e enigmáticas que ganhou o apelido de «o Obscuro».

A mais famosa chegou até nós pela boca de outros, citada por Platão:

«Ninguém entra duas vezes no mesmo rio.»

Na segunda vez, a água já é outra. A margem também mudou um pouco. E quem entra também não é mais exatamente o mesmo.

A frase costuma ser lida como uma reflexão sobre o tempo, sobre um mundo que não para de mudar. Mas ela serve muito bem para a viagem da turma.

O grupo inteiro estava tentando entrar no mesmo rio de 1994. E se surpreendia, com uma ponta de desconfiança, quando a água não correspondia.

Heráclito deixa de lado se a mudança é boa ou ruim. Ele só constata que ela acontece, o tempo todo, com ou sem permissão. A gente aceita a ideia com facilidade quando pensa no mundo, nas cidades, na tecnologia. E resiste quando o rio tem nome e sobrenome.

Talvez porque a ficha antiga tenha uma função escondida: ela mantém o nosso lugar no grupo. Se o Marcelo é o desligado, alguém precisa ser o responsável. Se a irmã é a mandona, alguém pode continuar sendo a pessoa tranquila da família.

Quando um muda, o papel do outro também balança.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Atualizar uma ficha antiga

Uma ficha só, revisada com calma, já basta para a quinta.

Busque na memória uma pessoa que você conhece há muito tempo. Da família, da escola, do primeiro emprego. Alguém que tem um adjetivo fixo na sua cabeça.

Escreva o adjetivo.

«Para mim, ela é…»

Agora tente responder, por escrito, três perguntas sobre essa pessoa hoje. O que ela faz no dia a dia? O que aprendeu nos últimos cinco anos? O que mudou no jeito dela de falar, de reagir, de decidir?

Se você não souber responder, já é uma descoberta. A ficha está desatualizada, e você só tem a versão antiga.

Se souber, compare as respostas com o adjetivo do começo. Às vezes ele continua valendo. Muitas vezes, cabe numa parte pequena da pessoa de agora.

No próximo encontro, um gesto simples: perguntar algo que você ainda não sabe sobre ela. E ouvir a resposta sem a piada de sempre pronta na boca.

O Marcelo, a propósito, escolheu uma pousada ótima.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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