Lucia Emmel   Dose Plena
ED 29

Eu expliquei tudo

Ela entendeu cada motivo. E continuou discordando

por Lucia Emmel

O regador que você devolveu no último sábado da horta

O regador que você devolveu no último sábado da horta

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Durante quatro anos, você dividiu um canteiro na horta comunitária do bairro com a dona Célia.

Couve, cebolinha, um pé de tomate-cereja que nunca deu certo. Todo sábado, às sete, os dois regadores lado a lado.

Em outubro, você decidiu sair.

Os sábados tinham ficado apertados. A horta é longe. E você queria usar as manhãs para a aula de cerâmica que vinha adiando havia dois anos.

Explicou tudo para ela no portão, com calma, motivo por motivo.

Ela ouviu até o fim. Depois disse: «Entendi. Os sábados, a distância, a cerâmica. Faz sentido. Mesmo assim, acho que você vai sentir falta e se arrepender.»

Você voltou para casa e, no caminho, gravou um áudio de quatro minutos explicando tudo de novo.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

O último sábado na horta

O áudio repetia os mesmos três motivos. Com mais detalhe, com mais exemplos, com um tom levemente mais firme.

Só que ela já tinha entendido os três. Tinha, inclusive, repetido cada um na sua frente.

O que faltou, então?

Faltou concordância. E a explicação nova tentava produzir concordância usando a ferramenta que serve para outra tarefa.

Explicar serve para ser compreendido. Quem explica bem consegue que o outro saiba o que você pensa e por que pensa. Mas compreender um motivo e aceitar a conclusão são passos diferentes. Dá para entender perfeitamente a escolha de alguém e, ainda assim, achar que ela vai dar errado.

Na saída do portão, os dois passos se misturaram. Como a dona Célia não concordou, pareceu que ela não tinha entendido. E, se ela não tinha entendido, a solução era explicar de novo.

Há outras leituras possíveis, e elas merecem espaço.

Pode ser que ela tenha entendido as palavras e não o peso delas. «Os sábados ficaram apertados» pode soar banal para quem não viu os seus sábados.

Pode ser que a discordância dela diga mais sobre ela do que sobre você. Quatro anos de canteiro dividido criam um hábito a dois, e quem fica perde alguma companhia.

E pode ser, também, que ela tenha visto algo que você ainda não viu. Gente que convive com a gente às sete da manhã às vezes enxerga o que a pressa esconde.

Nenhuma dessas leituras se resolve com um áudio mais longo.

A cena se repete em outros cenários. A decisão de mudar de emprego explicada pela terceira vez ao amigo que continua achando arriscado. O motivo de não ir ao casamento, detalhado num grupo de mensagens que já tinha entendido na primeira frase. A vontade de que o outro diga «você tem razão», escondida dentro do pedido «você me entende?».

 
 

II  O Fundamento

Spinoza e o verbo compreender

No século XVII, o filósofo holandês Baruch Spinoza escreveu uma frase que deixou como método de trabalho.

Ao estudar o comportamento humano, disse ele, tinha procurado não ridicularizar, não lamentar, não detestar, mas compreender.

A frase costuma ser lida como um elogio à compreensão. E ela é. Mas vale olhar para o que ela separa.

Compreender, para Spinoza, era um ato próprio, anterior ao julgamento e independente dele. Era entender por que alguém age como age, as causas, os encadeamentos, sem que esse entendimento obrigasse a aprovar a ação. Ele queria compreender até aquilo que considerava um erro.

Ou seja, compreensão não vem com concordância embutida. Ela pode existir ao lado de uma discordância inteira.

Visto desse ângulo, a dona Célia fez exatamente o que Spinoza recomendava. Não riu da decisão, não lamentou em voz alta, não ficou ofendida. Compreendeu. E, depois de compreender, discordou.

O que pedia mais trabalho, naquele portão, era aceitar que os dois passos tinham acontecido ao mesmo tempo.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Perguntar o que ficou entendido

Antes de explicar uma decisão pela segunda vez, faça uma pergunta.

«O que você entendeu do meu motivo?»

Se a resposta repete o que você quis dizer, a explicação já cumpriu a tarefa dela. O que sobra é uma discordância, e discordância não se desfaz com mais explicação. Ela pode ser ouvida, pode ser levada em conta, pode até mudar a sua decisão. Mas aí a conversa é outra.

Se a resposta sai torta, vale explicar de novo, só a parte que faltou.

O gesto também funciona na direção contrária. Quando for você a discordar, comece mostrando que entendeu: «Entendi que os sábados ficaram apertados e que a cerâmica importa. Mesmo assim, acho que você vai sentir falta.» A outra pessoa pode continuar sem gostar da sua opinião. Mas não vai precisar gravar um áudio de quatro minutos.

Na semana seguinte, a dona Célia mandou uma foto do canteiro. A couve tinha crescido. Embaixo, uma linha só: «Quando a primeira tigela ficar pronta, traz pra eu ver.»

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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