Lucia Emmel   Dose Plena
ED 24

Faz todo sentido

A explicação fechou tão bem que nem passou pela cabeça conferir

por Lucia Emmel

O saco de pão vazio, na semana em que a padaria fechou

O saco de pão vazio, na semana em que a padaria fechou

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Na segunda-feira, a padaria da esquina não abriu.

Porta de aço baixada, nenhum aviso. Na terça, também. Na quarta, de novo.

Você comprava pão ali havia nove anos. Conhecia o seu Antônio do balcão, sabia que ele separava o sonho de creme para quem pedisse até as dez.

E a explicação veio sozinha. Em março, abriu um supermercado grande a três quarteirões, com padaria própria, pão a preço de custo e estacionamento. Desde então, a fila da padaria tinha diminuído. Você também tinha ido ao supermercado algumas vezes.

Fechou. Não aguentou a concorrência.

Na quinta, você contou a história ao vizinho do 32 com um certo pesar. Ele concordou. Na sexta, os dois já lamentavam juntos o fim do comércio de bairro.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Uma porta baixada na esquina

Na segunda seguinte, a porta estava aberta.

O seu Antônio, bronzeado, contou que tinha ido ao casamento da neta no Nordeste. Primeira semana de folga em onze anos. Tinha esquecido de colar o aviso.

A explicação da semana anterior desmontou em uma frase.

E ela parecia sólida. Não era um palpite. Tinha a força de uma certeza, e essa força vinha da coerência. O supermercado existia. A fila menor existia. A porta baixada existia. Ligar os três pontos foi rápido, quase automático, e o desenho ficou bonito.

Só que coerência e verdade são qualidades diferentes.

Uma explicação coerente é aquela em que as peças se encaixam. Uma explicação verdadeira é aquela que corresponde ao que aconteceu. A primeira se avalia dentro da cabeça. A segunda só se confirma lá fora, com informação que nem sempre temos.

E a cabeça, diante de um fato estranho, prefere a primeira. Ela não gosta de buracos. Uma explicação qualquer, desde que bem montada, costuma ser mais confortável do que um «não sei».

Há uma outra camada, mais delicada. A explicação escolhida nunca é neutra. Ela foi buscar justamente o supermercado, aquele que você frequentava com uma ponta de culpa. A explicação disponível era a que já morava na sua cabeça.

E, contada ao vizinho, ganhou ainda mais força. Uma história repetida por duas pessoas parece duas vezes mais verdadeira, embora continue tendo uma única fonte: o seu palpite.

Situações assim não faltam. A mensagem não respondida que vira desinteresse. O cliente que cancelou e que você decide ter ido para o concorrente. O filho que ficou quieto no jantar e que, claramente, está escondendo algo.

Às vezes a explicação está certa. Às vezes não. O ponto é que a sensação de certeza é igual nos dois casos.

 
 

II  O Fundamento

As meias que eram todas iguais

Em 1977, dois psicólogos americanos publicaram um artigo com um título provocador: dizer mais do que podemos saber.

Um dos experimentos foi feito numa loja. Quatro pares de meias-calças eram expostos lado a lado, e os clientes escolhiam o de melhor qualidade. Os quatro pares eram idênticos.

Mesmo assim, as escolhas não se espalharam por igual. A maioria preferiu o par mais à direita, numa proporção de quase quatro para um em relação ao primeiro da fila. A posição pesou.

Quando os pesquisadores perguntavam por que tinham escolhido aquele par, as pessoas falavam do tecido, da elasticidade, do acabamento. Ninguém mencionou a posição. Quando os pesquisadores sugeriam a hipótese, quase todos negavam, alguns com certo espanto.

As explicações eram convincentes, detalhadas e sinceras. E não tinham relação com o que de fato orientou a escolha.

A conclusão dos autores foi desconfortável: muitas vezes não temos acesso direto às causas do nosso comportamento. O que fazemos é montar, depois, uma explicação plausível. E acreditamos nela com a mesma firmeza com que acreditaríamos na verdadeira.

Se a montagem vale para as nossas próprias escolhas, vale mais ainda para o que acontece do outro lado de uma porta de aço, onde o acesso é ainda menor.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

A segunda explicação

Pegue uma explicação que você está carregando agora. Pode ser sobre um vizinho, um parente, uma situação no trabalho. De preferência, uma que pareça óbvia.

Escreva a explicação em uma linha.

Depois, escreva uma segunda, diferente, que também explique os mesmos fatos. Ela não precisa ser mais provável. Só precisa ser possível.

«E se fosse…?»

O exercício não serve para concluir que a primeira está errada. Ela pode estar certa.

Serve para devolver a ela o estatuto de hipótese. Com duas explicações na mesa, a pergunta natural passa a ser qual informação diferenciaria uma da outra. E, muitas vezes, essa informação está a uma pergunta de distância.

Na quarta-feira, bastaria perguntar na banca de jornal ao lado.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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