Lucia Emmel   Dose Plena
ED 7

Mudar o plano não é desistir

Quando o plano para de funcionar, a pergunta certa é sobre a decisão que veio antes dele

por Lucia Emmel

A folha dividida em duas colunas, ainda em branco

A folha dividida em duas colunas, ainda em branco

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Você decidiu aprender espanhol.

Fez as contas, achou a escola, montou o plano: aula às terças e quintas, às sete da noite.

Durou cinco semanas.

Na sexta semana, a reunião das seis começou a atrasar. Na sétima, você chegou com vinte minutos de aula perdidos. Na oitava, nem foi.

Agora o plano está parado, e uma frase começa a se formar:

«Acho que espanhol não é para mim.»

Hoje, último dia da semana, a gente olha para o momento em que um plano deixa de funcionar e para a confusão que costuma vir junto. Primeiro, a cena. Depois, uma frase que Marco Aurélio escreveu para si mesmo e que serve para qualquer plano que emperra. Por fim, um exercício com uma folha de papel e duas colunas.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Terça e quinta, às sete da noite

Nessa cena acontecem duas falhas diferentes, e a gente costuma enxergar só uma.

A primeira falha é concreta. O plano não coube na vida. Terça e quinta às sete da noite pareciam ótimas quando você olhou a agenda em março. Não contavam com a reunião que começou a atrasar. O plano era bom no papel e frágil no mundo.

Até aqui, nada de grave. Planos falham o tempo todo. São tentativas de prever o futuro, e o futuro raramente coopera.

A segunda falha é mais silenciosa. Ela acontece quando, diante do plano que não funcionou, a conclusão salta direto para a decisão.

«O horário não funcionou» vira «eu não consigo manter».

«Eu não consigo manter» vira «espanhol não é para mim».

Em dois passos, sem que você perceba, a falha de um horário virou a revogação de uma decisão.

Com a cabeça fria, ninguém desistiria de aprender espanhol por causa de uma reunião que atrasa às terças. Ninguém abandona um projeto por um motivo tão pequeno, quando o motivo aparece com clareza.

O problema é que ele não aparece com clareza. Aparece misturado.

Decisão e plano chegam juntos, no mesmo pacote. A decisão é o quê e o porquê: aprender espanhol, porque você quer ler aqueles autores no original, porque quer conversar na próxima viagem. O plano é o como: a escola, os dias, o horário.

Quando o como falha, a sensação é de que o pacote inteiro falhou.

E aí, entre continuar tentando um plano que não cabe e desistir de tudo, a segunda opção parece até um alívio.

Mas existe uma terceira opção, quase sempre esquecida: manter a decisão e trocar o plano.

 
 

II  O Fundamento

Marco Aurélio e o obstáculo que vira caminho

Marco Aurélio governava o Império Romano e, nas horas que sobravam, escrevia anotações para si mesmo. Elas chegaram até nós com o nome de Meditações.

No quinto livro, há uma passagem que trata exatamente do plano que emperra.

O que impede a ação faz a ação avançar. O que está no caminho se torna o caminho.

Repare no que a frase propõe.

Ela não nega o obstáculo. Não diz que a reunião das seis não atrasa, nem que dá para ignorar o cansaço das sete da noite. O obstáculo é real.

O que a frase muda é a função dele. Em vez de ser o fim da linha, o obstáculo passa a ser informação sobre o próximo trecho.

A reunião que atrasa não diz que você não pode aprender espanhol. Diz que terça às sete não é o seu horário.

E essa informação é valiosa. Você não tinha como saber em março. Agora sabe.

A passagem troca a pergunta. Diante de um impedimento, ela deixa de ser «desisto ou insisto?» e passa a ser «o que eu ainda posso fazer, dado o que aconteceu?». A meta continua de pé. O caminho se adapta.

Há uma maneira de testar se o que você está vivendo é mudança de plano ou abandono de decisão. Pergunte:

«O motivo pelo qual eu decidi ainda existe?»

Se o motivo mudou, se você não quer mais ler aqueles autores, se a viagem foi cancelada, se a vida tomou outra direção, então a decisão pode ser revista. E revisar uma decisão com motivo é lucidez.

Se o motivo continua lá, intacto, o que falhou foi só o plano. E desistir da decisão por causa do plano é jogar fora o destino porque a estrada estava em obras.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Duas colunas numa folha de papel

Para hoje, basta uma folha de papel e cinco minutos.

Pense num projeto que emperrou. Uma decisão que você tomou e cujo plano parou de funcionar.

Divida a folha ao meio, com um traço vertical.

Na coluna da esquerda, escreva no topo: o que eu decidi.

Embaixo, coloque a decisão e o motivo. Uma ou duas linhas. «Aprender espanhol, porque quero ler no original.»

Na coluna da direita, escreva no topo: como eu ia fazer.

Embaixo, coloque o plano. «Escola, terça e quinta, sete da noite.»

Agora olhe para as duas colunas.

A falha está em qual delas?

Quase sempre, está na da direita. E a coluna da direita pode ser reescrita quantas vezes for preciso. Outro horário. Aula aos sábados. Quinze minutos de aplicativo no café da manhã. Um livro fácil, lido devagar.

Se a falha estiver mesmo na coluna da esquerda, se o motivo deixou de existir, risque a decisão com tranquilidade. Abandonar o que já não faz sentido também é uma escolha.

O que não vale é riscar a esquerda quando o problema está na direita.

Guarde a folha.

Amanhã começa uma semana nova, e ela é um ótimo lugar para estrear um plano novo para uma decisão antiga.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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