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O antropólogo francês Marcel Mauss publicou, em 1925, um estudo sobre trocas de presentes em sociedades muito diferentes entre si, das ilhas do Pacífico aos povos do noroeste da América do Norte.
Em «Ensaio sobre a dádiva», Mauss investigou sistemas de troca nos quais dar, receber e retribuir não eram atos inteiramente independentes.
A dádiva podia criar ou sustentar vínculos. E a retribuição fazia parte das obrigações socialmente reconhecidas nesses sistemas.
Isso não significa que todo presente seja uma negociação disfarçada. Tampouco que alguém, ao ajudar espontaneamente um amigo, esteja necessariamente esperando receber algo em troca.
A contribuição de Mauss permite observar outra coisa: dar e receber também podem ter significados relacionais, para além do valor material daquilo que circula.
É possível aplicar essa perspectiva, com os devidos cuidados, à situação da mudança.
Quando você passou o sábado ajudando seu amigo, talvez não estivesse criando uma dívida na sua cabeça.
Mas isso não significa que a disponibilidade mútua seja irrelevante para a amizade.
Existe uma diferença entre esperar que alguém devolva determinado favor e desejar uma relação na qual ambos estejam dispostos a ajudar quando puderem.
A primeira expectativa se aproxima de uma cobrança.
A segunda pode fazer parte daquilo que você considera importante numa amizade.
E há uma consequência interessante.
Se a reciprocidade diz respeito à relação, não podemos avaliá-la adequadamente por uma única troca.
Um amigo pode recusar uma carona e continuar sendo alguém profundamente disponível. Pode ter ajudado você em muitas outras ocasiões. Pode estar enfrentando uma dificuldade que desconhecemos.
Por outro lado, uma negativa aparentemente pequena pode chamar atenção para um padrão que já vinha se repetindo.
O problema, portanto, não é simplesmente descobrir se você esperava alguma coisa quando ofereceu ajuda.
É identificar o que exatamente a recusa fez você questionar. E se existem razões suficientes para essa avaliação.
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