Lucia Emmel   Dose Plena
ED 5

Não tive escolha

Às vezes, a frase descreve um fato. Muitas vezes, descreve um preço que a gente preferiu não pagar

por Lucia Emmel

O convite ainda no envelope, encostado na xícara

O convite ainda no envelope, encostado na xícara

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«Fui. Não tive escolha.»

Você já disse a frase. Provavelmente esta semana.

Sobre o jantar a que não queria ir. Sobre o email respondido às onze da noite. Sobre o curso que continuou pagando, a reunião que aceitou, o favor que fez de novo.

A frase tem uma qualidade rara: ela encerra a conversa. Depois dela, ninguém pergunta mais nada. Nem os outros, nem você.

Hoje a gente vai fazer justamente a pergunta que a frase impede. Primeiro, separar com calma o que era falta de escolha e o que era outra situação, bem mais comum. Depois, ouvir Viktor Frankl, que pensou a liberdade a partir do lugar onde ela parecia impossível. Por fim, um exercício pequeno com uma frase só.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Quatro palavras que encerram a conversa

Sábado à noite, aniversário de um conhecido. Você não queria ir. Estava com sono, tinha outros planos, e a amizade nem é tão próxima assim.

Foi.

Na segunda, alguém pergunta como foi o fim de semana, e você responde, quase sem pensar:

«Fui num aniversário. Não tive escolha.»

Agora, com toda a calma, imagine que alguém pede para você descrever exatamente o que teria acontecido se não fosse.

O aniversariante teria ficado chateado, talvez. Algumas pessoas teriam perguntado por você. Haveria um certo constrangimento no próximo encontro. Você teria que inventar uma desculpa, ou dizer a verdade, o que seria pior.

Repare no que a lista mostra.

Você tinha escolha. O que você não tinha era uma opção sem custo.

São situações muito diferentes, e a frase «não tive escolha» junta as duas no mesmo saco.

Existe a falta real de escolha. Ela acontece, e ninguém deveria minimizá-la. Uma enchente fecha a estrada. Uma demissão chega sem aviso. Um voo cancelado desmonta a viagem inteira.

E existe a outra situação, muito mais frequente: a escolha cujo preço não queremos pagar. O desconforto de uma conversa, a frustração de alguém, a imagem que vai ficar, o dinheiro que se perde, o trabalho de explicar.

Na segunda situação, dizer «não tive escolha» parece só um jeito de falar. Mas a frase faz um trabalho silencioso. Ela transfere a decisão para fora. A responsabilidade deixa de ser sua e passa a ser das circunstâncias, do aniversariante, do chefe, da vida.

E, junto com a responsabilidade, vai embora uma parte que você talvez não quisesse entregar: a sensação de que a sua vida é feita por você.

 
 

II  O Fundamento

Viktor Frankl e a liberdade que sobra

Viktor Frankl, pensador austríaco, passou por campos de concentração durante a Segunda Guerra. Depois de libertado, escreveu um livro sobre o que observou lá dentro.

Entre as observações, há uma frase que atravessou o século.

Pode-se tirar tudo de uma pessoa, menos a última das liberdades humanas: escolher a própria atitude diante de qualquer circunstância.

É preciso cuidado ao trazer essa frase para um jantar de sábado. A distância entre as duas situações é imensa, e ninguém deveria usar a experiência dele para medir o desconforto de um aniversário.

Mas é justamente essa distância que ilumina a nossa questão.

Frankl estava num lugar em que quase tudo lhe tinha sido tirado. Liberdade de ir e vir, de decidir o que comer, de proteger quem amava. Ali, de fato, não havia escolha sobre quase nada.

E, mesmo ali, ele percebeu que sobrava algo: a atitude. Ninguém conseguia decidir por ele como ele responderia ao que estava acontecendo.

Agora volte ao sábado.

Se até no lugar mais extremo sobrava uma escolha, a frase «não tive escolha» dita sobre um aniversário merece, no mínimo, um segundo exame.

Não para gerar culpa. Ir ao jantar pode ter sido a melhor opção. Talvez você tenha ido por carinho, por consideração, porque a amizade vale aquele cansaço. Ótimas razões.

A questão é outra. Quando você reconhece que escolheu ir, a mesma noite muda de natureza. Ela deixa de ser algo que aconteceu com você e passa a ser algo que você fez. E o que a gente faz, a gente pode avaliar, ajustar, repetir ou não repetir.

O que a gente acha que «aconteceu», a gente só aguenta.

Frankl ligava a palavra responsabilidade à capacidade de responder. Diante do que a vida apresenta, qual é a minha resposta?

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Trocar uma frase e ver se ela se sustenta

O exercício de hoje é de escuta.

Ao longo do dia, preste atenção numa frase específica, dita por você, em voz alta ou em pensamento:

«Não tenho escolha.» «Não tive escolha.» «Tenho que.»

Quando ela aparecer, faça uma troca.

Substitua por:

«Escolhi não pagar o preço de…»

E complete a frase com honestidade.

«Escolhi não pagar o preço de deixar o aniversariante chateado.»

«Escolhi não pagar o preço de responder o email só amanhã.»

«Escolhi não pagar o preço de cancelar o curso e admitir que não ia usar.»

Depois, leia a frase nova e veja se ela se sustenta.

Às vezes, ela se sustenta muito bem. O preço era alto mesmo, e você fez uma escolha razoável. Ótimo: agora a escolha é sua, e ela pesa menos.

Às vezes, a frase nova soa estranha. O preço, dito em voz alta, parece pequeno demais para o que você entregou em troca. É uma informação valiosa. Na próxima vez, talvez valha pagar.

E, de vez em quando, a frase não cabe. Não havia mesmo escolha. A estrada estava fechada. Então resta a última liberdade, a de Frankl: decidir com que atitude atravessar.

Em qualquer dos três casos, você sai da frase com algo que não tinha antes.

Uma resposta.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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