📨 Mensagens da Caixa de Saída de Lily

Carta 002

Assunto: Ninguém Aqui Faz Isso.

Destinatário: Melissa

Melissa-Não-Officinalis,

Prepare-se.
Corpo, mente e espírito…

Estou prestes a atacar.

Armei um exército imbatível de todas as vozes da minha cabeça.
Isso dá assunto para quilômetros de escrita.

Tudo começa com essa garoazinha fina que refresca o ar, mas esquenta todos os demônios da humanidade. A parte boa, pelo menos.

Ao sentir a necessidade de um agasalho leve, já me antecipo com um chá bem quente. Desta vez peguei cidreira — em homenagem à você, minha amiga — e, sob os bem-intencionados conselhos de "Isso vai te ajudar a se acalmar, menina!" de Dona Hortênsia, escolhi a maior caneca disponível, enquanto partia para a primeira batalha da tarde: conseguir brigadeiro de colher.

Revelou-se uma tarefa tranquila. Dispondo de certo grau de afeto Hortensial, enquanto a boa mulher espanava os utensílios do balcão, arrisquei o pedido e eis que ela cedeu.

Assim, cá estou refastelada no canto mais afastado da saleta de música — imagino sua careta agora — escrevendo e lambendo os beiços.

Mas veja: somando o meu reconhecido desprezo pelas lições de piano, o chá de cidreira — que remete à falta que você me faz, o brigadeiro e a inspiração imperiosa decorrente da garoa lá fora (que dura o dia inteiro!), a equação resulta em emoção furiosa e sem direção.

Ora, minha cara. Quem é capaz de dar direção à minha fúria emocional neste mundo dos vivos?

Sim.
Você, Melzinha.
Melissa-não-officinalis, aquela que atua diretamente no sistema nervoso central.

Em lembranças e visões espectrais — porque essa distância imposta pelas circunstâncias torna tudo muito impalpável.

Ainda bem que posso escrever.
Não desperdiçarei o ímpeto.

E quero registrar minha indignação.

Onde estão os planos, os combinados e as ideias de jerico que regiam nossas aventuras?

Aqui, exilada de tudo que eu conhecia como meu mundo, não existe compensação possível.
Há um porão — isso eu descobri com a Bianca. Até podíamos invadir e profanar as embalagens de iguarias, mas sem o mesmo efeito daquelas cervejas quentes do depósito.

A verdade cruel, Melzinha, é que estou velha para isso.

Nem as plaquinhas de saída de emergência me interessam mais, se não tenho você para dividir comigo os troféus da aventura.
Ao deitar-me numa das redes do alpendre, não corro nenhum risco de ser chacoalhada até despencar. Percebi que estava desperdiçando energia procurando maneiras de impedir um ataque, vigiando pelos reflexos de vidro das portas do saguão.

Ninguém coloca camundongos nos estojos alheios.
Ninguém empurra objetos para dentro dos buracos do assoalho.
Sequer há buracos no assoalho — para ser rigorosa na observação.
Ninguém cantarola a musiquinha do Batman quando o Diretor atravessa a sala.
Ninguém muda a posição dos cones de sinalização no estacionamento.
Ninguém cola fotos de gente famosa nos próprios crachás de identificação.

Como vê, Mel de Abelhas Indóceis, você faz muita falta neste universo de protocolos de comportamento.

E eu preciso crescer em maturidade.

Agora chega de lamentações. Vou tentar sossegar o facho.

O duro, diante do coquetel acima mencionado, é permanecer aqui calmamente treinando Debussy. Haja cidreira!

Vou mudar para Vivaldi, As Quatro Estações, para ver se metabolizo a saudade antes de chegar no inverno.

Descompassadamente sentimental,
envio minhas saudosas lembranças.

Beijo grande e boas provas trimestrais!

— Lily

📤 Mensagem enviada

Lucia Emmel

Laboratório Literário
Cartas. Cenas. Fragmentos.

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