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A primeira reação foi de surpresa, e logo depois de irritação.
Você não decidiu por conta própria. Fez a proposta na frente de todo mundo, esperou, deu espaço para qualquer objeção. Se havia algum problema, aquele era o momento.
Do outro lado, a leitura é outra, e também tem lógica.
Ninguém foi perguntado diretamente. Era o fim de uma trilha de duas horas, todo mundo com fome, metade da mesa no celular. Para quem estava ali, a frase soou como uma ideia lançada no ar, dessas que se comentam e se esquecem. Ninguém sentiu que estava votando.
Então o silêncio do café quis dizer o quê?
Pode ter sido concordância. Algumas pessoas talvez achassem ótimo o horário novo e não viram motivo para falar.
Pode ter sido distração. Quem não prestou atenção não concordou nem discordou. Apenas não estava lá.
Pode ter sido desconforto. Discordar na frente de todos, de quem acabou de propor algo com boa intenção, custa um pouco. Calar custa menos, pelo menos naquela hora.
E pode ter sido cálculo. Alguém imaginou que o resto do grupo queria a mudança e preferiu não ser a única voz contrária.
O silêncio era um só. Os significados, pelo menos quatro.
Cada lado, aliás, tinha um ditado a seu favor. Quem propôs pensava em «quem cala consente». Quem ficou quieto pensava, sem dizer, que ninguém pode concordar com o que não percebeu que estava sendo decidido.
A mesma mesa reaparece em lugares diferentes. Na família que «combinou» o Natal na casa de quem nunca foi consultado. No grupo de amigos em que uma sugestão de restaurante vira reserva feita. Na reunião de trabalho em que a ata registra uma aprovação que ninguém lembra de ter dado.
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