Lucia Emmel   Dose Plena
ED 32

Ninguém disse nada

Você entendeu que estava combinado. Os outros entenderam que ninguém tinha perguntado

por Lucia Emmel

As botas da trilha de domingo, ainda com o barro da semana

As botas da trilha de domingo, ainda com o barro da semana

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Há três anos, o grupo da trilha sai todo domingo às sete da manhã.

Oito pessoas, o mesmo morro, o mesmo café na volta, a mesma discussão sobre quem esqueceu a garrafa de água.

Neste domingo, com o sol já forte às oito, você fez a proposta no café: «Que tal a gente passar para as seis? Pega menos calor na subida.»

Alguém mexeu o açúcar. Alguém olhou o celular. Ninguém disse nada.

Você esperou um pouco e concluiu: «Então fechado. Domingo que vem, seis horas.»

Na sexta à noite, o grupo de mensagens acordou. «Seis? Quando foi decidido?» «Pra mim fica impossível.» «Achei que era só uma ideia.»

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Um café depois da trilha

A primeira reação foi de surpresa, e logo depois de irritação.

Você não decidiu por conta própria. Fez a proposta na frente de todo mundo, esperou, deu espaço para qualquer objeção. Se havia algum problema, aquele era o momento.

Do outro lado, a leitura é outra, e também tem lógica.

Ninguém foi perguntado diretamente. Era o fim de uma trilha de duas horas, todo mundo com fome, metade da mesa no celular. Para quem estava ali, a frase soou como uma ideia lançada no ar, dessas que se comentam e se esquecem. Ninguém sentiu que estava votando.

Então o silêncio do café quis dizer o quê?

Pode ter sido concordância. Algumas pessoas talvez achassem ótimo o horário novo e não viram motivo para falar.

Pode ter sido distração. Quem não prestou atenção não concordou nem discordou. Apenas não estava lá.

Pode ter sido desconforto. Discordar na frente de todos, de quem acabou de propor algo com boa intenção, custa um pouco. Calar custa menos, pelo menos naquela hora.

E pode ter sido cálculo. Alguém imaginou que o resto do grupo queria a mudança e preferiu não ser a única voz contrária.

O silêncio era um só. Os significados, pelo menos quatro.

Cada lado, aliás, tinha um ditado a seu favor. Quem propôs pensava em «quem cala consente». Quem ficou quieto pensava, sem dizer, que ninguém pode concordar com o que não percebeu que estava sendo decidido.

A mesma mesa reaparece em lugares diferentes. Na família que «combinou» o Natal na casa de quem nunca foi consultado. No grupo de amigos em que uma sugestão de restaurante vira reserva feita. Na reunião de trabalho em que a ata registra uma aprovação que ninguém lembra de ter dado.

 
 

II  O Fundamento

A viagem a Abilene que ninguém queria

Em 1974, um professor americano de administração publicou um artigo sobre uma tarde de calor no Texas.

Ele contava uma história da própria família. O sogro sugeriu jantar em Abilene, a quase noventa quilômetros. Cada um achou que os outros queriam ir, e concordou. Foram quatro horas de estrada, poeira e comida ruim. Na volta, descobriram que ninguém queria a viagem, nem mesmo quem a sugeriu.

O professor chamou o episódio de paradoxo de Abilene: um grupo decide algo que quase nenhum dos membros deseja, porque cada um supõe que está acompanhando a vontade dos demais.

Em Abilene, pelo menos, alguém disse «sim». No café da trilha, nem esse sim.

O que a história ilumina é o mecanismo por baixo do silêncio. Nem sempre ficar quieto é aprovar. Às vezes é proteger o grupo de um desconforto, ou evitar ser a única voz contrária. E quem propõe, ao ouvir o silêncio, tende a escutar exatamente o que esperava ouvir.

Os dois erros são possíveis na mesma mesa. Tomar o silêncio por um sim, e guardar o não para depois.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Pedir o não em voz alta

Na próxima vez que você propuser algo a um grupo, troque a espera silenciosa por uma pergunta que facilite a discordância:

«Alguém prefere que continue como está?»

Ela parece pequena, mas muda a conversa. Dizer «eu» depois dessa pergunta custa menos do que interromper uma decisão que já está sendo dada como certa. E, se mesmo assim ninguém se manifestar, aí sim o silêncio passa a significar algo.

Para decisões que mexem com a rotina de todos, vale ir além e ouvir cada pessoa, uma por uma. Demora mais. Costuma poupar a sexta-feira à noite.

E, quando você estiver do outro lado da mesa, sem vontade de discordar em público, há uma saída simples que não exige enfrentamento:

«Ainda não sei. Posso responder depois?»

Ela impede que o seu silêncio seja contado como voto.

No domingo seguinte, o grupo se encontrou às seis e meia. Ninguém tinha proposto esse horário. Mas, dessa vez, todo mundo disse que concordava.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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