Lucia Emmel   Dose Plena
ED 6

O caminho de sempre

Um dia você escolheu. Hoje você só mantém. A pergunta é se ainda escolheria

por Lucia Emmel

As chaves de sempre, no lugar de sempre

As chaves de sempre, no lugar de sempre

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Você sai de casa e vira à direita.

Sempre à direita. Mesmo que à esquerda o caminho seja mais bonito, ou mais curto, ou tenha aquela padaria que você jura que vai experimentar um dia.

Pergunte por que à direita, e a resposta demora a vir.

Talvez tenha existido um motivo. Uma obra na outra rua, há três anos. Um ponto de ônibus que nem existe mais. Uma escolha consciente, feita num dia qualquer, que foi ficando.

O motivo foi embora. A virada à direita ficou.

Hoje a gente olha para tudo aquilo que um dia foi decisão e virou costume, e que a gente segue fazendo sem saber se ainda escolheria. Primeiro a cena. Depois um estudo sobre quanto do nosso dia funciona sozinho. Por fim, um exercício para escolher de novo, nem que seja uma vez.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

O trajeto que ninguém mais escolhe

Primeiro, um inventário curto.

O caminho de casa até o mercado. O lado da cama em que você dorme. O café com açúcar, ou sem. A série que você continua assistindo, mesmo achando a última temporada fraca. O grupo de mensagens que você nunca lê, mas também nunca sai. A forma de responder quando alguém pergunta «tudo bem?».

Cada item dessa lista começou como escolha.

Em algum momento, você pesou, preferiu, decidiu. Foi à direita porque fazia sentido. Pôs açúcar porque gostava. Entrou no grupo porque queria estar ali.

Depois, a escolha foi se repetindo. E, de tanto se repetir, deixou de precisar de você.

A repetição tem um efeito útil e um efeito colateral. E os dois são o mesmo.

O efeito útil: libera a sua atenção. Você não precisa decidir todo dia o caminho, o lado da cama, o jeito de escovar os dentes. Imagine o cansaço de escolher tudo, sempre, do zero.

O efeito colateral: o que não precisa mais de você também deixa de passar por você. A decisão continua acontecendo, todos os dias, mas ninguém está mais tomando.

O conselho de sempre seria viver com mais consciência, prestar atenção em tudo, abandonar o piloto automático.

Ninguém consegue. E nem seria bom: o piloto automático é uma das melhores invenções da mente.

A pergunta é mais modesta. Entre tudo o que você faz no automático, existe algo que você não escolheria mais, se parasse para escolher?

Provavelmente existe. E a única forma de descobrir é parar para escolher.

 
 

II  O Fundamento

Quase metade do dia em piloto automático

Num estudo publicado em 2002 no Journal of Personality and Social Psychology, pesquisadores americanos pediram a estudantes universitários que anotassem, ao longo do dia, o que estavam fazendo, onde estavam e no que estavam pensando.

O resultado ficou famoso. Cerca de 43% das ações registradas eram repetidas quase todos os dias, no mesmo lugar. E, durante boa parte dessas ações, as pessoas estavam pensando em outro assunto.

Ou seja, quase metade do dia estava funcionando sozinha, enquanto a cabeça estava em outro lugar.

Não há nada de errado em quase metade do dia funcionar sozinha. É assim que a gente consegue dirigir e conversar, cozinhar e ouvir um podcast, caminhar e planejar a semana.

Mas o dado revela algo mais interessante quando a gente olha para o outro lado.

Se quase metade do que você faz acontece sem decisão, então quase metade da sua vida está sendo conduzida por escolhas feitas no passado. Algumas feitas por você, há muito tempo, em condições que já mudaram. Outras nem foram suas: vieram por imitação, por conveniência, pelo jeito como tudo era feito na casa em que você cresceu.

Essas escolhas antigas seguem valendo, todos os dias, sem passar por revisão.

Pense numa casa em que ninguém mexe na decoração há quinze anos. Os móveis podem até estar no lugar certo. Mas ninguém sabe, porque ninguém mais olha.

O hábito tem um jeito discreto de se defender. Ele não pede para ser mantido. Ele simplesmente acontece. E, como acontece sem esforço, parece natural, parece que sempre foi assim, parece que é você.

Mas talvez seja só a sua versão de três anos atrás, ainda virando à direita.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Fazer de novo, uma vez, como se fosse a primeira

Escolha um hábito do seu dia. Um só, e pequeno. O caminho, o café, a série, a forma de abrir o celular de manhã.

Hoje, faça esse hábito de novo, uma vez, como se fosse a primeira.

Devagar. Prestando atenção. Como quem experimenta.

Se é o café, prove como se nunca tivesse provado. Se é o caminho, repare nas ruas como se tivesse acabado de se mudar. Se é a série, assista ao episódio perguntando se está gostando, e não apenas seguindo.

Depois, faça a pergunta que o hábito evita:

«Se eu começasse hoje, escolheria?»

Três respostas são possíveis.

Sim. Ótimo. Agora o hábito é seu de novo, escolhido e não só mantido. Ele continua igual, mas passou por você.

Não. Também ótimo. Você acabou de descobrir uma decisão que estava sendo tomada no seu nome sem a sua presença. Mude o que der, quando der.

Não sei. Talvez a resposta mais honesta. Deixe a pergunta aberta por uma semana e repita o exercício.

O objetivo não é revisar a vida inteira. É abrir, de vez em quando, uma janela numa casa que ficou muito tempo fechada.

Amanhã, quando sair de casa, pare um segundo antes de virar.

Direita ou esquerda?

Tanto faz.

Desde que seja você quem escolha.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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