Faculdade.
Recostada no banco perpendicular à entrada da frente, respirando um ar mais-ou-menos puro, confortável e tranquila até o talo, com um picolé na mão.
Chicabon, obviamente.
Sem dúvida o melhor entre os melhores.
Informação relevante para o contexto: eu mordo picolés. Com os dentes.
Porque tenho irmãos homens.
Jamais chuparia um picolé.
Jamais.
Porque, como mencionei, tenho irmãos homens.
Dia de sol.
Um vento morno.
A árvore toda encarangada deixava cair folhas em torno de mim.
Não sei como acabei sozinha ali. Talvez as meninas estivessem se acotovelando no banheiro do térreo, ou correndo atrás de alguma coisa para a próxima aula.
Eu tentava lembrar se tinha esquecido de acompanhá-las para algum lugar — o que não seria a primeira vez, nem a última — e planejava discretamente como resolver isso.
Foi então que ele apareceu.
Caramba.
Sozinho.
S o z i n h o… por este lado de cá?
Nem pude acreditar.
Enquanto eu me concentrava para não parecer apoplética — nem me engasgar com meu delicioso objeto de doces mordidas — meu cérebro pensava em staccato, procurando desesperadamente alguma frase não estúpida para dizer.
Ele sorriu.
Caramba.
Um sorriso inteiro para mim.
E eu senti um megaflush de adrenalina subir direto para o meu rosto.
Filha-da-mãe.
Por que isso precisa acontecer toda vez?
Toda. Santa. Vez.
Foi exatamente nessa hora que Margarida surgiu — sei lá de que buraco de minhoca — toda sorridente, e disse:
— Boa tarde, tudo bem?
As minhas palavras.
Depois convidou o cara para a festa à fantasia. Disse que estava vendendo os ingressos.
Oh.
Meu coração parou.
Tudo parou.
Só faltou o barulhinho de grilo naquele vazio que se abriu no meu universo pessoal enquanto eu esperava a resposta.
Ele disse:
— Ah, legal! Vou sim.
Beijinho e tchau.
Inferno interminável de abominação dos diabos e todas as criaturas furiosas dentro do meu corpo franzino.
Ela desapareceu deslizando lépida pela entrada lateral.
Foi então que minha boca se abriu e eu ouvi minha própria voz dizendo:
— Ei. Eu ia vender o ingresso para você.
Ele parou de andar.
Olhou para mim.
Aquele olhar me desintegrando lenta e dolorosamente.
Toda. Santa. Vez.
Ele deu um meio sorriso sem jeito:
— Ah, mas eu compro de você.
Abismo.
Assim meu cérebro em pânico não acompanha.
Ele mentiu?
— Mas você acabou de dizer que vai comprar da Margarida.
— Não. Falei que vou na festa.
— Você não se comunica muito bem.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— O quê?
— Você não transmite muita informação.
Meu Deus.
Qual é o meu problema?
O que estou fazendo?
Pareço uma professora da quarta série que tem a obrigação moral de ser detestável.
Ele gargalhou:
— Por quê? Acha que não vou?
— Acho que não vai comprar o ingresso de mim. Nem dela. Você só estava evitando confrontação.
— Não. Eu só estava sendo educado.
— Ser educado é falso.
— Não é falso. Evita confrontação.
E meu coração se aquece ao constatar que ele é sempre tão loquaz, tão rápido e tão… convincente.
— E é isso que você está fazendo agora? Evitando confrontação?
Quase suspiro.
— Sempre.
Vê o que eu digo?
Ele tem o jogo nas mãos.
Ele é o mundo inteiro que eu desejo.
Lá se foi embora meu mundo, sem mim, com uma piscadela e um sorrisinho maroto.
Fiquei tentando identificar que tipo de fadiga mental estava sentindo.
Intrigada e exausta demais para lembrar da hora, da aula, da vida ou de qualquer outra coisa.
Foi então que apareceu o Crocodilo.
Ficou me olhando atacar meu Chicabon.
Não ofereci.
Ele viu o palito na minha mão e suspirou alto.
Depois perguntou, olhando bem para a minha cara:
— Gata, se eu te pagar outro picolé, você chupa aqui na minha frente?
Vontade de morrer.
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Lucia Helena Emmel

Laboratório Literário
Cartas. Cenas. Fragmentos.

