Lucia Emmel   Dose Plena
ED 15

O defeito que só aparece no outro

No outro, a gente vê o padrão. Em nós, vê o motivo

por Lucia Emmel

O relógio que marca o mesmo atraso para todo mundo

O relógio que marca o mesmo atraso para todo mundo

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Sábado, meio-dia e quinze. A reserva era ao meio-dia.

Você está na mesa, com a água sem gás já pela metade, olhando a porta do restaurante. O amigo que marcou o almoço ainda não chegou.

Não é novidade. Ele chega depois em todo encontro. Aniversário, cinema, café rápido. A turma já faz piada com o horário dele.

Às doze e vinte, ele entra sorrindo, pede desculpas, fala do trânsito.

Você sorri de volta. Por dentro, o veredito já está assinado: falta de consideração.

Na quarta seguinte, a reunião era às nove. Você entrou às nove e dezoito, com o café na mão e uma explicação ótima na ponta da língua.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Dois atrasos, duas explicações

O que pesa na cena são as duas explicações.

Quando o amigo se atrasa, você enxerga um traço. Ele é assim. Sempre foi. Não liga para o tempo dos outros.

Quando você se atrasa, enxerga uma circunstância. O elevador demorou, a ligação da noite anterior tirou o sono, o aplicativo do carro mostrou um caminho e o caminho estava fechado.

As duas explicações podem até ser verdadeiras. O trânsito dele também existia. O elevador também demorou de fato.

A diferença está no acesso. Do seu atraso, você conhece cada minuto por dentro: a pressa no banho, a chave que sumiu, a vontade sincera de chegar na hora. Do atraso dele, você conhece só o relógio da parede e a cadeira vazia.

Com tão pouca informação, sobra o rótulo.

E o rótulo tem uma vantagem enorme sobre a circunstância: ele explica tudo de uma vez e não pede investigação. «Ele é desorganizado» encerra o assunto. «Talvez a filha dele tenha perdido o ônibus da escola» abriria uma conversa que ninguém pediu.

Longe dos relógios, os pares se multiplicam.

A colega que interrompe todo mundo nas reuniões. Você, quando interrompe, só estava completando um raciocínio importante. O parente que reclama demais. Você, quando reclama, está desabafando com razão. O vizinho que deixa o lixo para depois. O seu lixo esperou porque a semana foi pesada.

Em todos os pares, o comportamento é parecido. Muda o lado da mesa de onde você olha.

 
 

II  O Fundamento

La Rochefoucauld e o prazer de notar

No século XVII, um nobre francês passou anos frequentando os salões de Paris e anotando, em frases curtíssimas, o que via as pessoas fazerem. O livro saiu em 1665 com o título de Máximas, e o autor era François de La Rochefoucauld.

Uma delas resume a cena de sábado com uma precisão quase incômoda:

«Se não tivéssemos defeitos, não sentiríamos tanto prazer em notá-los nos outros.»

A frase não diz que o amigo é pontual. Nem que o julgamento estava errado. Ela aponta para outro lugar: o prazer.

Notar o defeito alheio tem um gosto bom. Dá a sensação de estar do lado certo, de estar no controle. E, quanto mais aquele defeito se parece com um dos nossos, mais rápido ele salta aos olhos. É como se a gente reconhecesse o desenho de longe, por já ter passado muito tempo perto dele.

Três séculos depois, um grupo de psicólogos americanos chegou perto da mesma ideia por outro caminho. Em 2002, eles mostraram a estudantes uma lista de vieses de julgamento e fizeram duas perguntas: quanto a pessoa média cai neles, e quanto você cai. Os participantes se viam, de forma consistente, menos sujeitos do que os outros. Mesmo depois de ler a descrição de cada viés.

Saber da armadilha não impediu ninguém de cair nela. Só deixou mais fácil apontá-la no vizinho.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

O mesmo critério, com o nome trocado

Uma troca de nomes, feita em silêncio, ajuda mais do que qualquer resolução.

Traga à mente uma pessoa que tem um hábito que irrita você. Pode ser pequeno: chegar depois, falar alto ao telefone, esquecer de responder mensagem.

Escreva a frase que você costuma pensar sobre ela, do jeito que ela aparece na sua cabeça.

«Ela sempre…»

Agora troque o nome pelo seu e leia de novo.

Às vezes a frase não serve. Você de fato não faz aquilo, e o incômodo continua legítimo. Bom saber.

Outras vezes a frase serve, com algum ajuste. «Eu também esqueço de responder, quando a semana aperta.» E aí aparece um dado interessante: você sabe exatamente por que esquece. Tem motivo, tem contexto, tem a semana inteira por trás.

Sobra a dúvida sobre a outra pessoa. Talvez ela também tenha uma semana inteira por trás. Talvez não. O exercício não responde por ela.

Ele só devolve a cadeira vazia do restaurante para o lugar de onde ela parecia tão fácil de julgar.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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