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O motivo que fica de fora
A boa ação aconteceu. Os motivos dela é que você prefere não listar inteiros
por Lucia Emmel
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Os casacos que foram embora, por mais de um motivo
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O aviso apareceu no grupo do prédio numa segunda-feira: campanha do agasalho, caixa na portaria até sexta.
Você abriu o armário no mesmo dia.
Saíram seis casacos. Dois que você não usava desde a mudança. Um que nunca serviu direito. Um com etiqueta, comprado numa liquidação e esquecido no cabide. E dois bons, de verdade, que doeram um pouco.
Dobrou tudo com cuidado, levou à portaria e, antes de deixar a sacola, tirou uma foto.
A foto foi para o grupo do prédio com uma legenda modesta: «Minha parte. Vamos lotar essa caixa!»
Vieram onze curtidas e um «Que lindo!» da vizinha do sétimo.
Os casacos vão esquentar alguém em junho. Disso não há dúvida. A dúvida é outra, e ela apareceu na hora de apagar a luz.
Vem comigo. Continue lendo. ↓
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I A Cena
Seis casacos e uma foto no grupo
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Se alguém perguntasse por que você doou, a resposta sairia pronta: porque o inverno chega, e tem gente passando frio.
A resposta é verdadeira. Só não é a lista inteira.
Na lista completa, que ninguém pediu, entram outros itens. O armário estava apertado e você queria espaço. O casaco com etiqueta incomodava, como um lembrete da compra impensada, e doar transformava o erro em gesto bonito. A foto no grupo trazia um pequeno prazer, o de aparecer como quem participa.
Nenhum desses motivos é escandaloso. São motivos comuns, desses que quase todo mundo tem e quase ninguém menciona.
Mas eles incomodam por um detalhe: parecem diminuir a boa ação. Como se o casaco esquentasse menos por ter saído de um armário apertado.
Basta olhar em volta para achar outras sacolas.
O colega que se oferece para organizar a vaquinha do aniversário, e sabe que a chefe vai notar. A visita ao tio idoso, que é carinho de verdade e também alívio por não ouvir a cobrança da família no Natal. A gorjeta caprichada quando o amigo está olhando. O voluntariado que entra bem no currículo.
A ação é boa. O motivo é misturado.
E a pergunta que sobra é antiga: as motivações por trás de uma boa ação alteram o valor dela?
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II O Fundamento
Kant e o comerciante que não engana
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No fim do século XVIII, Immanuel Kant usou um exemplo de balcão para pensar a pergunta.
Um comerciante cobra o preço justo de todos os clientes, inclusive das crianças e dos desatentos, que ele poderia enganar sem ninguém perceber. Ele age corretamente. Mas age assim porque a fama de honesto é boa para os negócios.
Para Kant, a ação está de acordo com o dever, mas não tem valor moral. O valor estaria só no gesto feito porque é o certo, independentemente do lucro, da fama ou do prazer de fazer.
É uma régua exigente. Pela régua dele, boa parte do que chamamos de generosidade ficaria de fora, inclusive os seis casacos.
Outros pensadores olharam para o mesmo balcão e viram outra paisagem. Aristóteles, muitos séculos antes, dizia que a justiça se aprende praticando atos justos, e a generosidade, praticando atos generosos. Quem doa por motivos misturados está, pelo menos, praticando o gesto. E a prática vai moldando quem pratica.
E há ainda a pessoa que vai vestir o casaco em junho. Para ela, a foto no grupo não faz diferença alguma. O frio é o mesmo, e o casaco também.
Cada resposta olha para um lado diferente da ação. Kant olha para dentro de quem fez. Aristóteles olha para o que a pessoa vai se tornando. Quem recebe olha para o casaco.
Nenhuma delas é a resposta final. Talvez a pergunta seja mais interessante do que qualquer resposta definitiva.
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III A Dose Aplicada
A lista inteira, sem retoque
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Para a quarta, uma lista honesta, que ninguém mais vai ler.
Lembre de uma boa ação recente sua. Uma ajuda, uma doação, um favor, um gesto que alguém elogiou.
No papel, escreva todos os motivos que estavam ali. Os bonitos e os outros.
«Eu fiz porque… e também porque…»
Não precisa corrigir nada, nem decidir qual motivo pesou mais. Só listar, como quem confere o que tem na sacola antes de levar à portaria.
Talvez a lista surpreenda pelo tamanho. Talvez algum motivo apareça que você ainda não tinha admitido nem para si.
Depois, deixe a lista na mesa por um instante e responda devagar, sem pressa de chegar ao veredito:
se só o motivo bonito estivesse lá, você teria feito do mesmo jeito?
Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!
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Como foi a edição de hoje?
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Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena
por Lucia Emmel
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