|
Terça-feira, corredor, café na mão. Um colega pergunta se você pode ajudar na mudança dele no sábado. «Rapidinho, só de manhã», ele diz.
Você tinha planos para o sábado. Nada grandioso. Um livro, uma caminhada, a manhã sem horário.
Mas o pedido veio olhando nos olhos. Recusar exigiria uma frase. A frase exigiria uma explicação. E a explicação exigiria aguentar, por alguns segundos, aquele silêncio constrangido que vem logo depois de um «não».
Dez segundos de desconforto.
Foram esses dez segundos que você evitou.
Chega o sábado. A mudança começa às oito e não termina «só de manhã». Termina às cinco da tarde, com você carregando a terceira estante e calculando, em silêncio, quantas vezes já esteve exatamente aqui.
Se alguém tivesse perguntado na terça se você trocaria o sábado inteiro por dez segundos de alívio, a resposta seria óbvia. Ninguém faz essa troca de propósito.
E, no entanto, a gente faz o tempo todo.
Daqui é um pulo para a sentença moral: «eu não sei dizer não», «eu sou boazinha demais», «eu deixo os outros abusarem».
Pode até ser. Só que, por enquanto, a cena ainda não disse tudo o que tem a dizer.
Repare em como a troca foi montada. O desconforto do «não» estava ali, inteiro, na sua frente, com rosto e olhar. O custo do «sim» estava longe, no sábado, sem rosto nenhum. Um era presente e concreto. O outro era futuro e abstrato.
Diante dessa diferença, quase todo mundo escolhe adiar a conta.
O que a cena mostra, então, fica melhor guardado como dado do que como defeito: na hora de responder, o desconforto imediato pesa mais do que deveria.
E um dado a gente pode usar.
|