Lucia Emmel   Dose Plena
ED 13

Só desta vez

A exceção tinha um bom motivo. A regra nova ninguém chegou a decidir

por Lucia Emmel

O notebook aberto antes do café terminar

O notebook aberto antes do café terminar

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Um sábado, há uns dois meses, chegou um email de trabalho às nove da manhã.

Era urgente de verdade. Um cliente, um prazo, um problema que só eu sabia resolver. Abri o computador, resolvi em quarenta minutos e fechei.

Só desta vez.

No sábado seguinte, outro email. Menos urgente, mas eu já estava com o computador por perto. Só desta vez.

No terceiro, eu nem esperei o email. Abri o computador antes do café, «só para ver se tinha chegado algo».

Hoje é sábado. E, se você estiver lendo esta carta no celular, entre uma mensagem de trabalho e outra, talvez a cena não seja só minha.

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Um email urgente num sábado de manhã

A primeira exceção foi impecável.

Tinha motivo, tinha urgência, tinha fim. Qualquer pessoa razoável, no meu lugar, teria aberto aquele email. Eu abriria de novo.

O problema não estava nela.

Estava no que aconteceu depois, sem que ninguém percebesse.

A segunda exceção já se apoiava na primeira. «Se abri semana passada, não custa abrir agora.» A terceira se apoiava nas duas anteriores. E, em algum ponto entre a terceira e a quarta, a palavra exceção deixou de fazer sentido.

Ninguém decidiu que o sábado agora tinha expediente. Não houve conversa, não houve combinado, não houve sequer um momento em que eu pensasse no assunto. A regra antiga, a de que sábado era meu, simplesmente foi sendo substituída, um email por vez.

O mesmo desenho aparece em muitos lugares.

O celular na mesa do jantar, «só hoje, estou esperando uma ligação». O doce depois do almoço, «só hoje, foi um dia difícil». O colega que entrega atrasado, e você cobre, «só desta vez, ele está sobrecarregado». O prazo que você mesmo estica, uma semana, depois outra.

Em todos eles, cada exceção, olhada sozinha, faz sentido. O que nenhuma delas mostra é a soma.

E a soma é uma regra nova, que entrou em vigor sem votação.

 
 

II  O Fundamento

Quando o desvio vira o normal

Em 1986, o ônibus espacial Challenger se desintegrou pouco depois do lançamento, nos Estados Unidos.

Anos depois, uma socióloga americana passou quase uma década estudando os documentos da agência espacial para entender como pessoas competentes chegaram àquela decisão. O que ela encontrou foi um processo lento, sem nenhum erro súbito, que ela chamou de normalização do desvio.

Em voos anteriores, uma peça de vedação já tinha mostrado desgaste fora do esperado. Cada vez, o problema era analisado, considerado aceitável, e o voo seguia. Como nada grave acontecia, o desgaste deixava de ser alarme e passava a ser parte do padrão. A exceção de um voo virava a referência do seguinte.

Ninguém, em momento algum, decidiu mudar a regra de segurança. A regra foi mudando sozinha, a cada exceção bem justificada.

A distância entre uma tragédia histórica e um email de sábado é imensa, e o paralelo não serve para dramatizar a nossa rotina. Serve para mostrar um mecanismo que não depende do tamanho da situação.

O mecanismo tem três passos. Uma exceção com bom motivo. Uma repetição em que nada de ruim acontece. E a conclusão silenciosa de que, se nada de ruim aconteceu, então não era tão excepcional assim.

O detalhe mais traiçoeiro é o segundo passo. Quando a exceção não traz consequência imediata, ela parece segura. E cada repetição sem problema reforça a sensação de segurança, até a exceção virar o chão onde a gente pisa.

Não há nada de errado em mudar uma regra. Às vezes a regra antiga já não serve, e o sábado de trabalho é, de fato, a melhor escolha para aquela fase.

O que vale questionar é a mudança que ninguém escolheu.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Decidir de novo o que nunca foi decidido

Sábado é um bom dia para um inventário pequeno: o das exceções.

Pegue um papel e anote três situações em que você disse «só desta vez» nos últimos meses. As pequenas contam. Talvez contem mais.

Para cada uma, pergunte:

«Ainda é exceção, ou já virou regra?»

Se ainda é exceção, ótimo. Siga atento.

Se já virou regra, você tem duas saídas, e as duas são boas.

A primeira é oficializar. Decidir, de propósito, que a regra mudou, e combinar com quem precisa saber. «Agora eu trabalho duas horas no sábado de manhã, e depois o computador fecha.» Uma regra decidida tem limite. A que chegou por acidente não tem.

A segunda é encerrar. Voltar à regra antiga com um gesto claro. Fechar o notebook na sexta à noite e deixá-lo na gaveta até segunda.

Ruim mesmo é ficar no meio do caminho, chamando de exceção aquilo que acontece toda semana.

E, para hoje, uma pergunta: qual regra da minha vida mudou sem que ninguém me consultasse?

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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