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Lucia Emmel   Dose Plena
ED 11

Só mais uma comparação

Em algum momento, pesquisar deixa de melhorar a escolha e passa só a adiá-la

por Lucia Emmel

A lista de opções, riscada e reescrita mais de uma vez

A lista de opções, riscada e reescrita mais de uma vez

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O liquidificador quebrou numa segunda.

Na terça, abri o computador para comprar outro. Um liquidificador. Objeto simples, que faz uma tarefa só e faz há décadas.

Na sexta, eu tinha vinte e três abas abertas.

Potência, número de lâminas, material do copo, barulho em decibéis, garantia, avaliações com uma estrela, avaliações com cinco estrelas, vídeo de um senhor testando o aparelho com gelo e cenoura.

Três semanas depois, ainda tomava a vitamina batida no garfo.

E, toda vez que alguém perguntava, eu respondia com a dignidade de quem trabalha com seriedade: «Estou pesquisando.»

Vem comigo. Continue lendo. ↓

 
 

I  A Cena

Vinte e três abas para um liquidificador

A pesquisa começou muito bem.

Nos primeiros vinte minutos, aprendi o que importava. Descartei os modelos frágeis, entendi que potência demais era desperdício, encontrei três opções boas, com preço parecido.

Se eu tivesse comprado qualquer uma das três naquela noite, estaria satisfeita até hoje.

Não comprei. Pensei: e se existir uma quarta, melhor?

A quarta existia. Era um pouco melhor num ponto e um pouco pior em outro. Ela trouxe a quinta, que trouxe a sexta, que trouxe um fórum inteiro de pessoas discutindo liquidificadores com uma paixão que eu só tinha visto em final de campeonato.

Em algum momento daquelas três semanas, a pesquisa mudou de natureza, e eu não percebi.

Ela deixou de servir para escolher melhor e passou a servir para não escolher.

Enquanto eu pesquisava, nenhuma decisão errada era possível. A compra ruim, o arrependimento, a avaliação de uma estrela que eu mesma escreveria, tudo ficava suspenso. Pesquisar era um lugar confortável, porque ali eu ainda estava certa.

A frase «quero ter certeza» parece responsável. Às vezes é. Mas, depois de um ponto, ela vira outra frase, mais difícil de dizer em voz alta: «não quero correr o risco de errar».

E existe um custo escondido nesse adiamento. As três semanas de vitamina no garfo, por exemplo. Ou, em escala maior, o apartamento que alugaram enquanto você comparava, a vaga que fechou, a viagem que ficou para o ano que vem.

 
 

II  O Fundamento

Bom o bastante, uma ideia que ganhou um Nobel

Em 1956, um economista americano, que mais tarde ganharia o Nobel, propôs uma palavra que até hoje não tem tradução perfeita: satisficing.

É a junção de duas palavras em inglês, satisfazer e suficiente.

A ideia dele era simples e, para a época, provocadora. Na vida real, ninguém decide como as teorias econômicas supunham, comparando todas as opções possíveis até achar a melhor. Ninguém tem tempo, informação ou cabeça para tanto. O que as pessoas fazem, e fazem bem, é definir um critério de «bom o bastante» e escolher a primeira opção que passa nele.

Não se trata de preguiça. Para ele, era a única forma racional de decidir num mundo onde a informação custa tempo.

Décadas depois, outros pesquisadores levaram a ideia adiante. Num estudo publicado em 2002, separaram as pessoas em dois perfis: as que buscam sempre a melhor opção possível e as que se contentam com a primeira opção boa o bastante.

O resultado incomoda. As que buscavam o melhor ficavam, em média, menos satisfeitas com o que escolhiam, se arrependiam mais e pensavam mais nas alternativas que deixaram para trás.

Um trabalho posterior, com recém-formados procurando o primeiro emprego, foi além. Quem buscava a vaga perfeita até conseguiu salários iniciais maiores. E, mesmo assim, se sentia pior com a escolha.

O liquidificador ideal, aparentemente, não existe. E procurar por ele custa mais do que a diferença entre ele e o segundo melhor.

A pergunta que separa pesquisa de adiamento é uma só: que informação nova mudaria a minha escolha?

Se você consegue dizer qual é, pesquise. Vale a pena.

Se não consegue, você já tem o que precisa. O resto é só uma forma educada de esperar.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Escrever o critério antes de abrir a primeira aba

Pense na próxima escolha que estiver pendente. Grande ou pequena.

Antes de abrir mais uma aba, mais um vídeo, mais uma comparação, pegue um papel e escreva duas linhas.

Na primeira, o critério:

«Para mim, bom o bastante é…»

Três ou quatro características, no máximo. As que importam para você. O fórum que cuide das dele.

Na segunda, o prazo:

«Decido até…»

Uma data. De preferência próxima.

Com as duas linhas escritas, a pesquisa muda de função. Ela deixa de procurar a opção perfeita e passa a procurar a primeira que atende ao critério. Quando aparecer, escolha.

Se der vontade de continuar procurando, faça a pergunta do Fundamento: que informação mudaria a minha escolha? Se não houver resposta, feche as abas.

Pode ser que existisse um liquidificador dois por cento melhor. Você nunca vai saber. E vai tomar a vitamina no copo, hoje.

Sobra uma pergunta, e ela é sua: qual decisão eu estou chamando de pesquisa, quando ela já está pronta para ser tomada?

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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