Lucia Emmel   Dose Plena
ED 25

Talvez eu vá

Ninguém prometeu nada. Mesmo assim, o horário vazio pareceu uma promessa quebrada

por Lucia Emmel

A escala da barraca, com um horário que ficou sem ninguém

A escala da barraca, com um horário que ficou sem ninguém

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A escola do bairro ia fazer a feira de primavera no sábado, e você ficou com a barraca de bolos.

Montou a escala de voluntários num grupo de mensagens: dois por turno, das nove às cinco. Os horários foram sendo preenchidos. Faltava alguém para o turno das duas às quatro.

Uma vizinha, que você conhece há anos, respondeu: «Talvez eu consiga ajudar à tarde! Vou ver se encaixo.»

Era a última vaga, e o alívio veio rápido. Você escreveu o nome dela na escala, na linha das duas.

No sábado, às duas e dez, a linha continuava só com o nome. Às três, chegou uma mensagem: «Não deu! Sábado corrido. Boa feira!»

Você respondeu com um coração. E passou as duas horas seguintes na barraca sem ajuda, cortando bolo e dando troco ao mesmo tempo.

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I  A Cena

Uma barraca de bolo e uma escala

A sensação, no fim da tarde, tinha nome: decepção. E, por baixo dela, algo parecido com injustiça.

Só que, olhando a conversa no celular, não havia promessa nenhuma. Ela não disse «vou». Disse «talvez». Avisou que precisava encaixar. Ao não aparecer, cumpriu exatamente o que tinha dito: não deu para encaixar.

Então de onde veio a sensação de promessa quebrada?

Algumas leituras possíveis.

Pode ser que o «talvez» tenha chegado aos seus ouvidos já convertido em «sim». A pressa de fechar a escala fez o trabalho da conversão. Você ouviu o que precisava ouvir e, a partir daí, agiu como quem tinha uma confirmação: escreveu o nome, parou de procurar outra pessoa.

Pode ser também que o «talvez» dela fosse, desde o início, um «não» educado. Em muita conversa brasileira, o «talvez» funciona assim: evita a recusa direta e deixa a porta entreaberta por cortesia. Quem recebe nem sempre sabe se a porta está entreaberta ou só pintada na parede.

E pode ser, ainda, que o «talvez» fosse sincero, e o sábado dela tenha sido mesmo corrido.

As três leituras são plausíveis. O turno vazio é o mesmo nas três. O que muda é onde mora o desencontro: no que ela disse, no que você ouviu, ou em nenhum dos dois.

Promessas que ninguém fez aparecem em muitos lugares. O colega que disse «posso dar uma olhada, se sobrar tempo». O parente que «talvez passe aí no domingo». O fornecedor que «deve conseguir até sexta».

 
 

II  O Fundamento

J. L. Austin e as palavras que agem

Em 1955, o filósofo inglês J. L. Austin deu uma série de palestras na Universidade Harvard que viraram um livro: «Como fazer coisas com palavras».

A ideia central era que algumas frases não descrevem o mundo, elas agem sobre ele. Quando alguém diz «prometo», não está relatando uma promessa. Está fazendo uma. A frase cria uma obrigação que antes não existia.

Austin chamou essas frases de performativas. Batizar, apostar, prometer, casar: são ações feitas com palavras.

E o «talvez»?

Pela lente de Austin, o «talvez» tem um efeito inesperado. Ele também age, mas age ao contrário da promessa. Quem diz «talvez» está, justamente, recusando-se a criar a obrigação. Está marcando, com uma palavra, que o compromisso não foi assumido.

O problema é que essa marcação é delicada. Ela depende do tom, do contexto, da relação, da intenção. O mesmo «talvez» pode significar «quero muito, mas não sei se consigo» ou «não vou, mas não quero dizer». E quem ouve completa o sentido com o que tem à mão, inclusive com a própria necessidade.

A frustração do sábado não nasce de uma promessa quebrada. Nasce de uma promessa que nunca foi feita, mas foi recebida.

 
 
 

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III  A Dose Aplicada

Transformar o talvez em pergunta

Quando um «talvez» chegar de novo, sobre algo que importa, vale um gesto simples: transformar a palavra solta numa pergunta com data.

«Posso contar com você? Me diz até quinta.»

A pergunta não pressiona a outra pessoa a dizer sim. Ela só oferece um ponto de decisão. Se a resposta for «ainda não sei», você continua procurando alguém para o turno e, se ela aparecer, a barraca ganha três pares de mãos. Se for «sim», a promessa existe de fato, com tudo o que ela carrega.

E o gesto vale também na direção contrária. Quando for você a dizer «talvez», vale ler a palavra com os ouvidos de quem recebe. Às vezes o que você está dizendo é «não». E dizer «não» com gentileza costuma custar menos do que duas horas de bolo e troco.

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

 
 
 

Taças erguidas, brinde feito. Seguimos!

Dose Plena

por Lucia Emmel

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