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— Você mudou alguma coisa...
A voz dele me alcança enquanto passo apressada em frente à faculdade.
Ainda estou do lado de fora da cerca.
Interrompo os passos para encará-lo.
Quero ter certeza de que é mesmo comigo, porque isso é bem improvável por várias razões.
Primeiro, ele nunca anda por ali sozinho.
Segundo, eu mal pareço existir no universo de consciência dele.
Terceiro, dessa distância eu não enxergo nada.
E quarto, eu posso ter alucinações relacionadas a ele com muita facilidade.
— Eu? — pergunto.
Imediatamente me arrependo.
Há uma boa distância entre a calçada onde estou e o banco de madeira onde ele está. Sentado, a cabeça inclinada para trás, como se olhasse o céu.
Usa óculos escuros. Eu também — o que é bastante conveniente.
Sob aquele sol da manhã, perco dois batimentos cardíacos só de olhar.
Ele move a cabeça devagar na minha direção. Tira os óculos.
— Você está diferente. Seu cabelo...
Uhhh.
Ele percebeu?
Pane nas engrenagens cerebrais.
— É... mudei. Fase dark.
Respondo meio sem jeito, quase autodepreciativa.
Ele sorri.
— Ficou bom. Eu gostei.
Recoloca os óculos.
Prendo a respiração, tento me concentrar.
— Quê?!
Alto demais, rápido demais.
— Falei que gostei. Ficou bonita.
E ele já está olhando para cima de novo. Uma displicência invejável.
Aceite o elogio e agradeça, garota.
Trilha sonora imaginária invade meu raciocínio, sem dó.
“Sei, não é questão de aceitar…” 🎶
Roupa Nova, agora?
Pelo amor de Deus.
— Obrigada — consigo dizer, baixando o rosto, já consciente da minha face quente, no tom berrante de um tomate bem maduro.
É claro que não encontro absolutamente mais nada para acrescentar.
Vazio mental total. Um poço profundo, sem fim.
— Você ficou vermelhinha… à moda antiga?
Ele arqueia as sobrancelhas e acrescenta:
— Assim destaca mais ainda os seus olhos.
Tudo dentro de mim vira primeiro geleia e, depois, pedra.
Ergo a mão, em reflexo, e percebo os óculos-escuros.
Boa. Autopreservação.
— Você não tem como saber. Estou de óculos.
Oh, céus.
Não posso ter dito isso.
Senhora do Tempo, retroceda.
Retroceda agora, por favor.
Mas é claro que a Senhora do Tempo, tecendo sua manta implacável, não abre exceções.
— Eu já vi os seus olhos antes.
Ele parece achar graça.
— É, eu sei... — murmuro — Não tenho muito como impedir.
Excelente.
Agora só falta eu listar todos os meus defeitos.
Ele franze o cenho.
— Você não gosta que vejam seus olhos?
— Não... eu... acho que tenho anisocoria.
Silêncio.
Maldita memória de emergência.
— O quê? — ele pergunta. — Anisocoria? Tem certeza?
— Não. O Bagre me disse ontem.
— Maior à esquerda ou à direita?
— Não faço ideia. Não percebi nada.
— Deixa eu ver.
— Não! Preciso entrar.
“A gente não pode impedir…” 🎶
— Você não devia ouvir o que esses caras dizem — decreta ele — eles são...
— ...uns canalhas. Eu sei. — interrompo.
— Eu ia dizer babacas.
Ele me corrige, sorrindo.
Impacto visceral direto e brutal.
“Se a vida cansou de ensinar…” 🎶
Sinto meu sangue pastoso circulando com esforço.
— Mas é verdade. — ele enfatiza — São babacas… e também são canalhas, mesmo.
E volta a olhar para o céu.
“Sei que o amor nos dá asas…” 🎶
Eu queria ficar ali pelo resto da vida.
“Mas volta pra casa” 🎶
Só que as minhas pernas já estão entrando porta adentro, enquanto minha alma se esforça para fora, como se estivesse tentando escapar.
Os corredores se movem.
O teto parece subir.
Paro.
Concentro minha atenção em um ponto. O mural.
Respiro fundo.
Nesse momento chega por trás um colega intrometido, da turma dele.
— Nossa! Você pintou o cabelo?
— Pintei.
— Mas pintou porque quis ou a cor natural é essa?
— Não. Pintei mesmo.
Ele me examina.
— Fez bobagem. Era muito mais bonita antes.
— Oh! Quanta gentileza.
— Não vai chorar, né? É só opinião. Não falei que você está feia. Só que eu gostava mais antes.
— Ah, que pena. Bem, opinião registrada. Obrigada.
Balanço deliberadamente meus cabelos escuríssimos enquanto saio.
— Vou chorar, sim. Por cem anos.
Falo de longe, rindo e andando depressa.
Ainda feliz, apesar das caretas do meu amor próprio.
E um pouco indignada.
— Nossa! Não precisa ser grossa! Metida!
Entro na sala de aula, ainda saboreando o elogio que ganhei antes.
Espontaneamente.
Da pessoa que mais me impacta, entre todas.
Isso afaga meu amor próprio.
Nunca mais vou parar de sorrir.
Nunca mais vou despintar o cabelo.
Até a professora olhar para mim e dar um gritinho:
— Oh, ruivinha! O que você fez com o seu cabelo?!
Meu amor próprio faz um biquinho, cruza os braços e me encara.
Sim.
Eu sei.
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Lucia Emmel

Laboratório Literário
Cartas. Cenas. Fragmentos.

