
🗒 O espaço em branco que você (não) tem
Já sentiu orgulho da sua agenda lotada?
Eu já.
Como se fosse um atestado tácito de competência: “Olha como eu dou conta de tanta coisa!”
E só depois de grandes doses de frustração, percebi o que hoje parece óbvio:
estava confundindo ocupação com realização.
Mergulhada até a medula óssea no mito da produtividade heroica, ostentando os sintomas da síndrome da agenda lotada como se fosse um troféu. Que orgulho.

Estar ocupado não é o mesmo que estar realizando algo.
Estar ocupado pode ser só barulho. Só fumaça. Ilusão daquelas! Correria disfarçada de progresso.
Mas é um disfarce muito bem aceito socialmente.
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
🌀 "Não confunda movimento com progresso.”
— Ernest Hemingway
Durante boa parte da vida, internalizamos a lição errada.
Entendemos sucesso e ocupação como sinônimos, como se um dependesse do outro para existir. Não é por acaso.
Vem como uma ideia geral, como quem não quer nada, nos sussurros do dia-a-dia, nas entrelinhas da cultura do sucesso, desde a nossa mais tenra idade:
💭 Quanto mais ocupada uma pessoa está, mais bem-sucedida ela deve ser.
💭 Quem tem tempo livre, desconfie: talvez esteja fracassando.
💭 Uma agenda vazia? Que vergonha. Melhor preencher logo com alguma coisa.
E assim incorporamos a ideia, como parte do senso comum:
Para alguém ter sucesso, acumular muitas ocupações é pré-requisito indispensável.
Assim, começamos um processo de abraçar todas as coisas que se apresentam diante de nós, marcando compromissos como quem preenche álbuns de figurinha, como se o objetivo fosse ocupar todos os espaços disponíveis.
Para não perder nada.
Para aproveitar tudo que parece oportunidade — vai que…
Para demonstrar competência e importância até para nós mesmos.
Sem perceber, trocamos vida plena por vida ausente.
Cheia de coisas, vazia de presença.
📌 Ter uma agenda lotada não é sinônimo de importância.
É só sinal de que você disse “sim” para muitas coisas — nada mais, nada menos.
É por isso que a parte racional do cérebro deve sempre lembrar que o objetivo da vida não é fazer o máximo possível, mas fazer o que tem importância, e o que precisa ser feito por você — que é seu dever de estado.
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
🛠️ O Mito da Produtividade
Existe uma diferença brutal entre:
Fazer tudo e
Fazer o que importa.
Mas a gente confunde.
Confunde porque estar ocupado virou moeda de validação.
E descansar virou motivo de culpa.
Só que…
O tempo é finito. A vida também.
E não existe troféu no fim do dia pra quem só se manteve ocupado.
🕰️ “O tempo é a coisa mais valiosa que uma pessoa pode gastar.”
Nada detém o tempo. Fazer por fazer desperdiça ‘presença’ e esvazia o sentido.
Encher sua vida de afazeres não impede o tempo de passar, mas pode impedir você de perceber a jornada que é a sua vida acontecendo.
Se o tempo é um recurso não renovável, desperdiçá-lo com atividades sem sentido é tão absurdo quanto jogar dinheiro fora. Ainda mais absurdo, porque o dinheiro pode ser ressarcido. O tempo, não.
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
🧩 A Armadilha do Tetris
A questão aqui é escapar da armadilha de querer fazer o máximo possível — mesmo sem ser essencial.
Transformar a agenda num jogo de Tetris: encaixa daqui, gira dali, soma mais um compromisso só porque “dá para fazer”.
Como se isso fosse sinal de competência.
Não é.
É só exaustão fantasiada de eficiência.

Lutar contra o tempo já é uma derrota. Ocupá-lo com sentido é a melhor opção.
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
🏋️♀️ Adaptar-se — A Batalha Desigual
Eu venho me empenhando nisso, assim como você provavelmente se empenha.
A luta é árdua, contínua e desigual.
Outro dia, consegui — depois de muito esforço — reservar duas horas livres nas manhãs de quarta-feira. Um espaço para fazer mais um treino resistido na semana. É intencional e cumpre bons critérios:
✔️ Traz benefício.
✔️ É essencial para um objetivo específico.
✔️ É indelegável.
Não durou duas semanas.
Logo me vi dizendo ‘sim’ para uma reunião recorrente naquele horário, na qual minha presença era totalmente dispensável, diga-se.
Justificativa?
“Ah, é só uma horinha…”
E lá se foi o espaço suado que eu tinha criado.
Piscou, perdeu. Toda a atenção é pouca.
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
🧼 Precisa fazer o que tem que ser feito
Bem, fazer o que precisa ser feito também faz parte da vida. Por menos digno que pareça.
Entra na categoria “útil”, quando não é agradável.
Lavar a louça. Desentupir o ralo. Organizar o caos antes que ele vença.
Quando dá pra delegar, ótimo.
Quando não dá, coloque presença.
Porque quando estamos por inteiro no que fazemos, até o banal ganha sentido.
“Faz o que deves e está no que fazes.”
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
💎 O que é que realmente importa, então?
Importa o que tem valor.
Não o valor de mercado. Nem o que aparece no LinkedIn.
Importa o que traz sentido/significado para você. (Tem um pouquinho sobre sentido e valores na Carta 001).
Valor é aquilo que:
te aproxima de quem você quer ser,
atende uma necessidade real,
traz propósito ou pertencimento,
te dá vontade de continuar.
Pode ser um trabalho. Uma sensação de dever cumprido.
Pode ser um silêncio contemplativo. Uma pausa para entendimento ou retomada de fôlego.
Pode ser entretenimento ou diversão.
Pode ser estar inteiro num momento simples com alguém que você ama.
Pode ser ficar sem fazer nada — e ainda assim estar vivenciando tudo.
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
🔘 As Pausas Indispensáveis

Precisamos constantemente revisar nossos compromissos.
Tudo o que fazemos toma nosso tempo, gasta nossa energia e consome um pedaço da nossa vida.
Estamos trocando o nosso tempo pelos compromissos que assumimos, pelos afazeres que tomamos como nossos.
É imprescindível escolher em que estamos colocando nosso tempo de vida.
As pausas permitem sentir o tempo. Tornam cada minuto vasto em realização.
Nesses momentos, o tempo não para, mas preenche a vida de sentido, de modo que ela se expande e alcança plenitude.
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
✨ O Verdadeiro Sucesso
Precisamos de tranquilidade se quisermos discernir e buscar ser o melhor de nós a cada momento.
Sem essa tranquilidade, nos tornamos reativos.
Ficamos sobrecarregados.
Nossa bússola fica descalibrada.
Perdemos a noção de quem somos.
Estar ocupado não é sinal de sucesso.
A capacidade de discernir e decidir intencionalmente, de escolher seus compromissos e suas batalhas — isso é sucesso.
É preciso encontrar um lugar de calma e foco em meio ao barulho da vida cotidiana.
Eu me comprometi com isso. Comprometa-se também.
Encontre espaço para isso. Faça acontecer.
Garanta prioridade ao que tem prioridade.
Não é fácil, mas é crucial lutar por isso.
É o que, no final das contas, fará com que tenha valido a pena.
Viva bem, escolha bem.
Até a próxima dose,
Lucia Helena
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
💬 Avalie a edição de hoje:
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
💠 Microdoses da Semana:
Experimentações semanais da autora.
🎧 Música:
🎸 "Tempo Perdido" – Legião Urbana
Uma das faixas mais emblemáticas do rock nacional dos anos 80. Fala sobre tempo e escolhas com a intensidade poética de quem já percebeu que estar vivo é estar atento.
📖 Leitura:
📚 “Devagar” – Carl Honoré
Um livro que propõe desacelerar como atitude revolucionária.
📺 Série:
🕰️ "Severance" (Apple TV+)
Uma crítica ácida e brilhante ao modo como o trabalho pode consumir identidade e tempo. Surreal, inquietante e certeira para quem já se viu refém do “modo agenda cheia”. Já indiquei antes, acho que vale a ficha.
🎙️ Frase do dia:
“Quem vive correndo talvez esteja só fugindo de si mesmo.”
━━━━━━ ⏳ ━━━━━━
Obrigada pela leitura!
🥂 Taças erguidas, brinde feito — Seguimos.

